Tamanho da letra: A+  |  A-
 
  TEMPOS

TEMPOS

 
“Eu morro ontem
... Nasço amanhã
Ando onde há espaço
- Meu tempo é quando.”

Vinícius de Moraes, “Poética”


Uma amiga tem uma dúzia de relógios. E nenhum tempo. Seu tempo é nunca, sua pressa, sempre. Ela reclama do tempo todo o tempo. Aprendi que tempo não é questão de relógio, mas de prioridade. Alguém já viu uma pessoa apaixonada não dispor de tempo para encontrar o ser amado? E alguém já não se viu sem tempo para o desagrado ou para o desafeto?

O aprendizado do tempo – como o do espaço – vem do começo. O bebê aprende a noção de tempo pela sua necessidade vital: há a hora da fome e a do alimento. O choro é reclamo pelo tempo negado e o que nele no momento certo não veio. Carência do leite e do colo. O feto não tem e nem precisa da noção de tempo. O corte do cordão umbilical marca o início do “sentimento do tempo”. O mais é aprendizado.

Aprende-se, desde cedo, haver tempo para cada coisa. E aprende-se mais, que se há de respeitar o tempo, porque a ele nada se impõe. Respeitar o tempo é respeitar a si mesmo a ao outro.

Aprende-se a conter a fome, quando se sabe que há hora certa da comida. Mas não se tem noção de tempo quando a fome esbarra na incerteza do que comer. Aprende-se a suportar o sono e a adiar o dormir, a calar o grito porque é momento de ouvir; aprende-se que o tempo corre diverso quando é hora de alegria e quando a dor se eterniza. Ainda que os ponteiros apontem minutos iguais.

Diz-se que o tempo mudou. O homem é que mudou. Não vivemos tempo de mudanças, mas mudanças de tempo. As máquinas cada vez mais velozes viriam para que cada um tivesse mais tempo para si mesmo e para o outro. No entanto, passe-se mais e mais tempo escravos delas. Senhoras de mais tempos nossos, as máquinas se multiplicam.

Fico lembrando minha mãe: ela não tinha computador. Mas tinha uma penteadeira. Os sete filhos não lhe tiravam o tempo preciso de se assentar e se olhar. Via o seu tempo traduzido nas linhas que ela decerto notava brotarem e vicejarem em seu rosto. A banheira devia mostrar-lhe o corpo que mudava até o fim. Ela tinha hora para cada coisa, para cada gesto, para cada pessoa que desenhava a sua paisagem humana. Não se estranhava, decerto, em cada tempo e em cada mudança em sua vida.

Quem não tem um tempo para se ver enxerga de verdade o outro? Pergunto-me ciente de ser de uma geração que, em geral, nem ao menos curte o banho; toma uma ducha. E com a água, escorre sem se perceber também a vida e o tempo de prestar atenção no que vai e não volta. Tempos sem tempo. Mal me dou conta de que minha cabeça vai ficando branca, porque o espelho três por quatro enquadra apenas um rosto curvado com o celular num dos ombros, colado ao ouvido, atenta/desatenta ao que escuto e falo: não tenho tempo de me ver por inteiro.

Meu tempo é depois. Mas será que há um depois quando todos os agoras são tão imperceptivelmente vividos nesta eterna falta de tempo? Tempos idos e vividos, diziam os antigos... Não há como lidar com o ido. Por isso é de se pensar em como seguir vivendo nestes nossos apressados tempos. O que viver nem sempre é escolha humana. Como se vive é opção de cada um. “Encontro você depois, pois estou atrasada” é o nosso até logo. Que nem sempre se faz logo. Às vezes é nunca. O poeta tinha razão: meu tempo é quando... Um quando que, às vezes, não chega.

Cármen Lúcia Rocha – Ministra do Supremo Tribunal Federal (STF)

 
  Nenhum comentário | deixar comentário  
Voltar ›
     
 
 
  Clique aqui para mandar um e-mail!
  FAMÍLIA É PRATO DIFÍCIL DE PREPARAR
 
  A NOBREZA DO SERVIR
 
  ERÓTICA É A ALMA
 
  O PRESENTE - FREI VENILDO TREVIZAN
 
  VOLTAR É SEMPRE UM RECOMEÇO
 
  Mais Artigos ›  
  CEREJAS DA VIDA
 
  O SENTIMENTO DE SAUDADE
 
  PODER E STATUS
 
  APROVEITA ENQUANTO DURA
 
  Eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz!
 
  Mais Crônicas ›  
Sintonia Comunicações Ltda
CNPJ: 005.967.432/0001-90