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  JOÃO MANUEL SIMÕES

Quem é Deus?

(REVISTA IDÉIAS)

simoes

Quem é Deus? Eis aí uma indagação que pode não fazer sentido para os ateus e os agnósticos, mas que preocupou sempre, e continua preocupando, em todas as latitudes do planeta, os crentes de todos os credos.
 
Não serei eu quem terá a estulta pretensão de responder a tal pergunta. Darei a palavra a filósofos ilustres e a teólogos respeitáveis. Eles, ao longo dos séculos, tangenciaram o tema, com maior ou menor profundidade, com maior ou menor brilho. Há mais de dois milênios que eles vêm dando a sua resposta a essa questão difícil, mas facílima para aqueles que têm o dom de uma fé robusta.
 
Comecemos por Anaxágoras, o grande filósofo helênico. Para ele, Deus é simplesmente o criador da ordem no mundo, enquanto para Platão, o excelso Filósofo da Academia, Ele é o Artífice – ou Demiurgo – do universo, e também o primeiro motor ou guia de todas as coisas que se movem.
 
Para Aristóteles, Deus é a primeira causa de que dependem todas as séries causais, inclusive a das causas finais.
 
 
Intelecto do intelecto e pensamento do pensamento, na visão platônica, Deus é, sobretudo, Ato Puro, na concepção aristotélica. Já Plotino proclamava que Ele é a potência de tudo, enquanto Escoto Erígena via no universo a plena teofania, ou manifestação divina.
 
Para Ekhart, Deus é a verdadeira essência de todas as criaturas, uma essência superessencial, enquanto, para Nicolau de Cusa, Deus é tudo em todas as coisas, e todas as coisas são – e estão – em Deus. Ele é a essência de todas as essências, a edificação do múltiplo cósmico, mas também Necessidade Absoluta.
 
E o que diz o imenso Bispo de Hipona, Santo Agostinho? Que Ele é o Ser dos seres, o fundamento de tudo o que é, o criador e ordenador de tudo quanto existe. Já Santo Tomás de Aquino, na sua “Suma Teológica”, vislumbra em Deus o Ser cuja essência implica a existência.
 
Substância infinitamente e eternamente necessária, para Leibnitz, Deus é também, para Spinoza, a única Causa perfeita e onipotente.
 
Voltaire, às vezes considerado, equivocadamente, ateu, via em Deus um Ser poderosíssimo – e inteligentíssimo – que se manifesta numa triplicidade admirável – as leis, os princípios e os valores.
 
O aspecto eminentemente moral de Deus está presente, ainda, em Immanuel Kant, que afirma: “A existência de Deus é um postulado da Razão Prática, pois só Deus torna possível aquela união da virtude e da felicidade em que consiste o Sumo Bem, que é o objeto próprio da Lei Moral”. E o grande mestre do Criticismo – e do Transcendentalismo – continua: “Deus é o criador onipotente do Céu e da Terra, e também, do ponto de vista moral, o legislador santo; é o criador e conservador de gênero humano, assim como benévolo regedor e curador moral; e é o guarda de Suas próprias leis, isto é, Juiz Justo”.
 
Também Fichte, na esteira do luminoso pensamento kantiano, vê em Deus a viva e operante ordenação moral do Cosmos. Finalmente, para Hegel, Deus é a Razão que habita o Mundo, e a realidade histórica.
 
Secundo Scripturas, do Gênesis ao Apocalipse, Deus é o Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis; dirige e governa o Universo; é o Alfa e o Ômega; todas as coisas proclamam a Sua glória; é Único, é Espírito, é eterno e imutável, é imenso e onisciente, é santo e terrível, é bom e misericordioso, é redentor e salvador, é Juiz Universal, é Amor.
 
Chegado a este ponto, eu me permito, do fundo do poço da minha insignificância pensante, formular três indagações. E as respostas talvez estejam implícitas nas próprias perguntas. Quais são essas indagações? Ei-las:

E se a humanidade, a nossa e todas as outras humanidades que porventura existam, ao longo dos latifúndios do Cosmos, através de miríades de galáxias com bilhões de estrelas e planetas, humanidades talvez constituídas por trilhões ou quatrilhões de seres humanos, ou afins, forem, no seu conjunto orgânico inimaginável, o Corpo de Deus?

E se as suas almas forem apenas átomos, moléculas do Espírito divino? E se as suas mentes forem simplesmente neurônios do Cérebro de Deus?
 
E se cada homem, criado à imagem e semelhança de Deus, for talvez um pequeno deus em miniatura, infinitesimal? Não todos, é claro. Mas alguns, como Sócrates, Buda, Paulo, São Francisco de Assis, Tolstoi, Gandhi, Albert Schweitzer, João Paulo II e outros.
 
Equacionando essas questões transcendentes, paro por aqui. Mas não sem antes evocar aquela que me parece a mais bela definição de Deus. Quem a formulou? O grande papa que foi João XXIII. O que dizia o autor dessas encíclicas admiráveis que foram Mater et Magistra e Pacem in terris? Isto: “Deus é Pai, mas também é Mãe. E nós somos Seus filhos”.
 
Mas é o próprio Deus, Suprassumo do Bem, quintessência da Beleza, Imenso, Eterno, Infinito, Imutável, e ao mesmo tempo, Pai, Filho e Espírito Santo, quem proclama, no limiar do Livro dos Livros, com Sua voz poderosíssima: “Eu sou Aquele que É”.
Como cristão e católico, certamente imperfeito, quase me sinto tentado a concluir dizendo: amém. Convidando o estimado leitor a cantar comigo: aleluia!

Dixi.
 
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