Campo Grande, 22 de setembro de 2020

Blog do Manoel Afonso

Opinião e atitude no Mato Grosso do Sul

Artigos

Artigos • 30 mar, 2020

Anônimos e famosos (Ruy Castro)


A Gripe Espanhola não escolheu suas vítimas. O coronavírus também não escolherá

Custou, mas o coronavírus trouxe de volta a memória do flagelo que atingiu o mundo nos estertores da Primeira Guerra, em fins de 1918: a Gripe Espanhola. Não era uma gripe nem viera da Espanha, mas assim passou à história e, em menos de três meses, matou 50 milhões —quase dez vezes o número de mortos da própria guerra. Anônimos e famosos.

Na França, morreram o dramaturgo Edmond Rostand, autor de “Cyrano de Bergerac”, e o poeta Guillaume Apollinaire. Na Áustria, Sophie, filha de Freud, e o pintor de vanguarda Egon Schiele. Na Alemanha, o economista Max Weber. Em Portugal, Francisco e Jacinta, as crianças do “milagre de Fátima”. Nos EUA, os irmãos John e Horace Dodge, tubarões da indústria de automóveis, e Henry Ragas, pianista da primeira banda de jazz a gravar um disco. E muitos mais.

O Brasil teve 35 mil mortos. Só no Rio, onde morreram 15 mil pessoas, a Espanhola levou os irmãos Jorge e Antonio Lage, senhores da navegação marítima no país; a mulher e o filho do estadista Afranio de Mello Franco; o craque Belfort Duarte, do América, símbolo da disciplina no futebol; dois filhos menores dos eminentes jornalistas Eugenia e Alvaro Moreyra; e a cafetina Alice Cavalo de Pau, imperatriz dos bordéis da Lapa. O poeta Olavo Bilac morreu durante a Espanhola, mas não dela —já vinha com uma séria condição cardíaca que apenas se agravou.

E outro de quem se diz erroneamente que morreu na Espanhola foi Rodrigues Alves, presidente eleito em 1918 e que não tomou posse. Alves, como o chamavam, tinha um histórico de beribéri contraída no passado e que pode ter voltado em 1916, quando era governador de São Paulo. Ao contrário de sua expectativa, tanto que aceitou a Presidência, sua doença só piorou e lhe foi fatal. Quando morreu, em janeiro de 1919, a Espanhola já não matava ninguém.

Anônimos e famosos —o coronavírus também não fará distinções.




Deixe seu comentário