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Artigos • 28 abr, 2018

Apóstolos, Epístolas, Apocalipse


por Mario Sergio Conti

 

Saiu o segundo volume de uma coletânea de livros arcaicos e obscuros, da qual há versões de sobra para todo tipo de crente. Sim, a velha Bíblia. Dessa vez, ela não se destina a místicos. Nem a pastores que querem manter o rebanho no aprisco ou estão de olho em ovelhas perdidas.

Traduzida do grego por Frederico Lourenço, um professor da Universidade de Coimbra de 55 anos, ela se beneficia de pesquisas linguísticas que vêm revolucionando os estudos bíblicos. A primazia é do texto, e não dos dogmas de uma ou outra igreja.

Os 73 livros da Bíblia foram escritos por dezenas de homens, ao longo de séculos. Há relatos, ensaios, versos, profecias, inserções feitas a posteriori. Lourenço não dissolveu as vozes dissonantes num coro harmônico, regido por um senhor de barbas brancas sentado numa nuvem.

Ele situa cada livro na sua época e, por assim dizer, o traduz por dentro, atento a sua tessitura interna. Se não cai no anacronismo de usar termos de hoje para o que foi dito há mais de um milênio, também não se furta a mudar —porque imprecisas— palavras que a tradição petrificou.

O Pai Nosso, por exemplo, aparece duas vezes no Novo Testamento, e ambos são diferentes do da missa. Mas, no Evangelho de João, o tradutor manteve “No princípio era o Verbo”. Como não achou um vocábulo português equivalente ao “logos” grego, deixou “verbo” mesmo.

Lourenço se formou em letras clássicas, traduziu Homero, publicou poesias, ensaios e romances. É um erudito que não atulha seus ensaios introdutórios e notas de rodapé com doutas frivolidades. Clareza e elegância: eis o seu credo. Por fim, ele foi católico.

Ser escritor, intelectual e laico levou-o a traduzir para pios e ímpios, para todos os interessados numa literatura que marcou a história mundial e molda a vida de milhões. Num ambiente linguístico parco em traduções bíblicas, e ainda mais objetivas e críticas, a sua versão é um evento.

Projetada para seis volumes, a Bíblia de Lourenço começou pelo Novo Testamento, todo ele em grego —no Velho, há livros em hebraico. “Quatro Evangelhos” (Companhia da Letras, 421 págs.) saiu há dois anos. Agora é a vez de “Apóstolos, Epístolas, Apocalipse” (609 págs).

O volume vai da Ressureição ao Juízo Final. A parte mais plástica e poética é o Apocalipse, que João escreveu na ilha de Patmos. Ele reverbera até hoje, seja no afresco no fundo da Capela Sistina, no qual Michelangelo se embrenhou no barroco, seja no “Doutor Fausto”, de Thomas Mann.

O engenho raciocinante está nos Atos dos Apóstolos e nas Epístolas, nos quais Paulo é fundamental. Nascido em Tarso, na Grécia, e cidadão romano, ele era um judeu que perseguia cristãos. A caminho de Damasco, viu uma luz ofuscante, achou que era Cristo, caiu por terra e se converteu.

O episódio é contado três vez em Apóstolos, e em nenhuma delas Paulo cai do cavalo, como no quadro de Caravaggio. Já nas cartas que Paulo ditou a seu secretário —e enviou a grupos cristãos espalhados pelo Império Romano— não há sílaba sobre o assunto.

Isso talvez ocorra porque Paulo não ligava para o esdrúxulo. Suas cartas são o contrário dos Evangelhos. Nelas não há curas mágicas, pão e peixes para todos, parábolas anedóticas, o Nazareno legal que descola vinho no fim da festa, e do bom. A divindade que o mobiliza não é milagreira nem visionária. É Cristo, o Ungido, o que ressuscita.

Essa abordagem tirou o cristianismo primitivo da condição de seita judaica. Para ele, a lei (as Escrituras, o superego) e a carne (o pecado, o id) podiam ser superadas por um transe universal. (Lourenço diz que “erro” traduz melhor a palavra grega que virou “pecado” nas bíblias católicas).

O apóstolo que pregava aos gentios fez o cristianismo virar a religião do Império. Nas últimas décadas, seu universalismo fascinou pensadores —de Pasolini a Lacan, de Badiou a Zizek. Ele serve de antídoto aos particularismos nacionais e identitários. Mas o Paulo do Vaticano é outro.

Bento 16 preferia o apóstolo que disse “quero que todas as pessoas sejam como eu”. Ou seja, solteiros e assexuados. Se não pudessem viver sem sexo, que casassem virgens, não tivessem prazer e não se divorciassem. Quanto aos gays, Paulo poderia ter inspirado um desses Bolsonaros, pois disse que eles são “merecedores de morte”.

Compreende-se: Paulo achava que o mundo iria acabar na sua geração. Logo, diante das tarefas postas pela possibilidade de redenção, o sexo não estava com nada. Como o mundo continua, e não nos libertamos da lei e da carne, suas palavras ainda são música para os ouvidos de uns e de outros.

*Publicado na Folha de S.Paulo




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