Campo Grande, 19 de janeiro de 2020

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Opinião e atitude no Mato Grosso do Sul

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Artigos • 09 dez, 2019

A crise da carne (Dirceu Pio)


Existem muitas diferenças entre esta Crise da Carne que o Brasil começa a viver neste primeiro ano do governo Jair Bolsonaro e aquela outra, muito mais contundente, ocorrida durante a implementação do Plano Cruzado, lançado em 27 de fevereiro de 1986, pelo governo de José Sarney com Dilson Funaro, já falecido, no Ministério da Fazenda.

Naquela, a carne simplesmente desapareceu; nesta, existe carne mas custa caro.

Naquela, o governo tinha de achar um culpado; nesta, o próprio governo admite que a alta do preço foi causada pelas exportações.

Naquela, o governo montou uma farsa para criminalizar os pecuaristas, acusados de reter o boi gordo no pasto; nesta, o governo prestigia os pecuaristas e os tem como aliados na retomada do crescimento.

Naquela, a Rede Globo ajudou o governo a montar a farsa; nesta, a Rede Globo insiste em fazer do governo seu maior inimigo.

Naquela, a Rede Globo formava opinião, mas a mídia impressa era capaz de exercer um belo contraponto; nesta, só a Rede Globo acredita que ainda forma e a mídia impressa tem a sua força debilitada pelo processo de desinformação sustentado pela internet.

MUNDO DE PONTA CABEÇA

Nesses 35 anos que nos separam do Plano Cruzado, o mundo virou de ponta cabeça. A inflação foi debelada ( Plano Real, julho de 1994) ; o PT permaneceu no poder por 15 anos e demonstrou que é capaz de devastar o país; surgiu a Lava Jato para mostrar que roubava-se – e roubava-se muito ! – no Brasil; a internet se espalhou, adquiriu musculatura e aniquilou a mídia impressa; e até a pecuária passou por fortes transformações com a introdução do que é chamado de “novilho precoce”, o resultado da evolução da genética e alimentação que viabilizou o confinamento, arrefeceu a busca por terras aliviando a pressão pelo desmatamento da Amazônia.

Nos anos 1980, eu dirigia a sucursal paranaense dos jornais o Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde e lá no meu canto assistia à cobertura, liderada pela Rede Globo, da crise da carne bovina que havia desaparecido de todos os açougues do Brasil.

A Rede Globo dava o tom da orquestra: falta carne porque os pecuaristas, prejudicados pelo Plano Cruzado, retinham os bois gordos no pasto para afrontar e boicotar o governo.

Helicópteros com repórteres do Fantástico sobrevoavam as pastagens para mostrar a enorme quantidade de bois gordos retida pelos pecuaristas.

PISANDO EM BOSTA DE VACA

De repente, me dei conta de que havia algo estranho naquela cobertura: nenhum repórter, nem da Globo, nem de qualquer outra mídia havia visitado uma só propriedade rural para ver se de fato os produtores estavam boicotando o Plano Cruzado.

Liguei para a editoria de economia do Jornal da Tarde. Minha intenção era sugerir que o jornal mandasse repórteres para pisar em “bosta de vaca”. Falei com o editor, hoje meu amigo, Júlio Moreno, e ele simplesmente me respondeu: “Ótima ideia, pega fotógrafo e vai !” – e eu fui.

Só no Brasil, acompanhado pelo fotógrafo Carlos Ruggi, rodamos cerca de 12 mil quilômetros, pisando em bosta de vaca, entrevistando dezenas de pecuaristas em praticamente todas as zonas produtoras de carne – Umuarama e Paranavaí, no Paraná; Araçatuba e Presidente Prudente, em SP; Campo Grande, Dourados, Naviraí, no Mato Grosso do Sul e algumas cidades pantaneiras do Mato Grosso; Uberaba e Uberlândia, em Minas Gerais.

Minha primeira descoberta foi que é muito difícil definir se um boi está gordo, no ponto de abate, e que é impossível saber na visão de cima para baixo, de quem viaja de helicóptero.

Todo animal bovino tem o que é chamado de “caixa” (espaço abaixo da coluna que começa quase junto ao pescoço e vai até a traseira) e a ossatura revela tudo: ossatura saliente é o sinal de que o boi ainda precisa de alguns meses de pasto.

O Jornal da Tarde começou a publicar a série de reportagens que eu e Carlos Ruggi produzimos uns 15 dias depois da viagem; conseguimos apenas alinhar a pauta da maioria da mídia que começou a notar que o foco da líder de audiência estava errado.

E VEIO O CONFINAMENTO

Não conseguimos evitar que o governo cumprisse a promessa, aplaudido pela Globo, de confiscar uma grande boiada de um pecuarista do norte do Paraná. Eu estive lá e vi os bois confiscados: ainda precisavam de pelo menos três meses de pasto para chegar ao ponto de abate.

A conclusão que minha série de reportagem apontava foi que não havia retenção de boi gordo no pasto; a crise fora determinada pelo próprio Plano Cruzado, que, ao elevar o poder aquisitivo da população, fez o consumo de carne disparar.

Os brasileiros, portanto, comeram no primeiro semestre a carne que seria usada pelo governo para formar os estoques reguladores na entressafra (julho a dezembro).




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