Campo Grande, 11 de agosto de 2020

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Artigos • 22 jun, 2020

E O VENTO VOLTOU


Não me espanta que as pessoas ainda se interessem por …E o Vento Levou. O que me surpreende é que Olivia de Havilland, aos 103 anos, ainda esteja viva para acompanhar a mais nova controvérsia em torno do filme. Em meio à onda de protestos que se instalou nos EUA depois da morte de George Floyd, a plataforma de streaming HBO Max decidiu retirar o filme do seu catálogo por tempo indeterminado. A medida foi anunciada um dia depois da publicação no Los Angeles Times de um artigo do escritor John Ridley, roteirista do filme 12 Anos de Escravidão, acusando a superprodução de adocicar a escravidão: “Como cineasta, entendo que os filmes costumam ser instantâneos de momentos da História. Eles refletem não apenas as atitudes e opiniões dos envolvidos em sua criação, mas também as da cultura predominante. Como tal, mesmo os filmes mais bem-intencionados podem ficar aquém na forma como representam comunidades marginalizadas. …E o Vento Levou, no entanto, é uma questão à parte. Não é apenas ?aquém? em relação à representação histórica. É um filme que glorifica o sul que antecedeu a guerra civil. E quando não ignora os horrores da escravidão, perpetua alguns dos estereótipos mais dolorosos sobre pessoas de cor”.

Ridley não pedia que o filme fosse censurado, mas sugeria que a HBO incluísse em seu catálogo títulos que retratam outras perspectivas do assunto. Alguns dias depois, o canal anunciou que o filme vai voltar, agora acompanhado de uma contextualização apresentada pela professora de cinema Jacqueline Stewart – que, por sinal, também defende a ideia de que o filme deve ser visto e debatido, ao invés de escondido ou boicotado.

A saga de superação que conquistou o mundo nos anos 1930 refletia a visão de mundo de uma escritora, a sulista Margaret Mitchell, criada em um ambiente de profunda nostalgia da ordem social escravocrata nocauteada pela guerra civil. …E o Vento Levou, portanto, já era racista quando o livro (de 1936) e o filme (de 1939) foram lançados, em plena vigência das leis Jim Crow de segregação. Há fotos de manifestantes negros protestando diante dos cinemas na estreia, mas, não por acaso, ninguém deu muita bola na época.

Em 2020, é bem mais difícil ignorar as vozes dos que não aceitam a representação da escravidão como uma instituição respeitável e pacífica. Boicotar obras de arte, porém, é sempre a resposta mais simplista e estéril. A visão de mundo de um artista pode ser massacrada pela posteridade, mas isso não significa que sua obra deva ser descartada. Pelo contrário. Um passado reprimido ou não elaborado causa muito mais mal do que a crítica mais demolidora. E não ensina nada.

CLAUDIA LAITANO – Fonte Zero Hora – RS



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