Campo Grande, 20 de setembro de 2020

Blog do Manoel Afonso

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Artigos • 12 set, 2020

“O isolamento social está prejudicando toda uma geração de crianças” .


Recentemente eu li um artigo no site Slate no qual a mãe de uma menina de quase cinco anos expressou preocupação sobre o fato de a menina não ter visto nenhum de seus amigos por mais de cinco meses, desde que começou o isolamento por causa da Covid-19:

“Por causa da Covid-19, meu marido e eu decidimos que ela não iria frequentar a escolinha, e que nós mesmos iríamos ensiná-la, tudo o que ela precisasse, antes de começar na educação infantil. Isso não me preocupou no que diz respeito ao ensino que ela teria, mas me deixou realmente preocupada com o desenvolvimento dela, e com a perda de interação social que ela vai experimentar”, escreveu ela.

Um dos colunistas do site respondeu àquela mãe que não se preocupasse sobre o isolamento social da filha, dizendo:

“Ela faz parte de toda uma geração de crianças de 5 anos que estão sob quarentena. Ela vai levar um tempo até se acostumar com a novidade que vai ser reentrar na sociedade – na verdade, todos vão levar um tempo para se acostumar a isso.”

A resignação em relação às ordens de lockdown, do distanciamento social sem fim, do uso obrigatório de máscaras e de restrições de viagens – mesmo que o ritmo de contágio pelo vírus esteja em queda nos EUA – é muito prejudicial à nossa saúde econômica e social, e pode ser particularmente problemática para crianças que estão separadas de seus colegas.

Embora algumas evidências sugiram que os jovens estejam se saindo bem, mesmo sendo forçados a ficar fora do convívio escolar, com menos estresse e ansiedade gerados pelo ambiente das escolas, as mesmas pesquisas indicam que as crianças e adolescentes estão sentindo muito a falta de seus amigos.

A tendência é que o isolamento continue para muitas crianças por conta dos planos das escolas de levar adiante somente o ensino à distância nos próximos meses – a menos que os pais intervenham para aliviar essa solidão.

Um artigo no The Wall Street Journal expôs o impacto do isolamento social provocado pela pandemia nas crianças e adolescentes.

“‘De todas as faixas etárias, é provável que o vírus tenha sido mais socialmente devastador para os adolescentes, mais do que qualquer outro grupo. Eles estão entediados e estão solitários’, disse Joseph P. Allen, um professor de Psicologia na Universidade da Virgínia.”

Outro artigo recente do WSJ reforçou esse efeito colateral indesejado dos lockdowns e do distanciamento social nos adolescentes, particularmente nas meninas: “As garotas adolescentes já experimentavam níveis recorde de solidão, ansiedade e depressão antes da pandemia, de acordo com Mary Pipher, psicóloga clínica e autora do livro Reviving Ophelia: Saving the Selves of Adolescent Girls [Reviver Ofélia: Salvando a Identidade das Adolescentes].”

“‘Todas as coisas que já vinham aumentando a depressão nas meninas há um ano agora foram exacerbadas pela pandemia’ [disse] Dra. Pipher.”

Crianças precisam de outras crianças
Independentemente da sua opinião sobre a reabertura das escolas para o ensino presencial, a realidade é que as crianças precisam estar perto de outras crianças para brincar, socializar e aprender.

Eles não precisam que essa brincadeira, essa socialização e esse aprendizado ocorram nas escolas.

Na verdade, eles certamente vão achar mais autêntico e satisfatório brincar e aprender fora de uma sala de aula convencional. Peter Gray, professor e pesquisador da área de Psicologia na Boston College, tem uma vasta obra sobre a importância da brincadeira infantil não estruturada para a saúde e o bem estar das crianças. Em uma entrevista concedida em junho, Gray disse:

“Brincar é crucial para o desenvolvimento das crianças. E muito da minha pesquisa mostra que nas últimas décadas nossas crianças vêm sendo privadas de brincar. Elas passam tanto tempo na escola, tanto tempo nas tarefas da escola, tanto tempo em atividades dirigidas por adultos, que não são exatamente brincadeiras.”

“Brincar é uma atividade que a criança desenvolve por si só. Quando brincam, essas crianças tomam o controle de si mesmas, e os seus filhos aprendem a ser independentes e resolver os próprios problemas”, conclui Gray.

Se as crianças já vinham sendo privadas das brincadeiras antes da pandemia, então muitas delas podem estar ainda mais privadas agora, distantes de seus pares há cerca de seis meses. Gray documentou a correlação entre a queda nas brincadeiras e o aumento de doenças mentais em crianças e adolescentes.

Isso é algo profundamente preocupante para as crianças, e especialmente os adolescentes, que não têm contato presencial com os amigos há meio ano.

Por mais que a tecnologia tenha sido uma espécie de salva-vidas para todos nós durante a pandemia, ela também consumiu uma grande parte das vidas das crianças. Um novo relatório divulgado em setembro pelo Children’s Hospital de Chicago mostrou que 63% dos adolescentes estão usando mídias sociais mais do que usavam no período anterior à pandemia. Mais da metade dos pais desses jovens disseram que esse uso extensivo das mídias sociais não trouxe nenhum impacto negativo aos filhos.

Saúde física e mental
Talvez ainda mais surpreendente, a pesquisa mostrou que 68% dos pais disseram que as mídias sociais estão interferindo na capacidade de seus filhos adolescentes de ter interações sociais normais.

Preocupações sobre o uso e o impacto das mídias sociais na saúde mental e social dos adolescentes já eram discutidas amplamente antes da pandemia, mas esse cenário pode ser particularmente preocupante agora, à medida que esse uso das mídias sociais aumenta enquanto os adolescentes seguem separados de seus amigos.

A continuação da quarentena para crianças e adolescentes saudáveis é equivocada e priva esse público das atividades típicas de suas idades, como brincar e interagir com outras pessoas, e que são críticas para o crescimento e o desenvolvimento.

Jon Miltimore, da Foundation For Economic Education, escreveu um ótimo artigo em que descreve todas essas situações, e oferece dados internacionais sobre o baixo risco de Covid-19 para as crianças.

O risco de saúde corporal causado pelo vírus pode ser pequeno para as crianças, mas os riscos no campo da saúde mental e emocional causados pela separação forçada de seus pares vai no caminho oposto:

“As melhores evidências científicas que temos nos mostram que as crianças não têm muito a temer da Covid-19. Como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos apontou, a gripe comum é muito mais perigosa para as crianças do que o coronavírus”, escreveu Miltimore.

Miltimore conclui afirmando que: “uma sociedade que priva suas crianças de suas liberdades mais básicas, como se reunir para brincar, aprender, explorar e socializar causa a essas crianças uma injustiça que vai resultar em mais mal do que bem. Temos amplas evidências e exemplos da vida real mostrando que os custos da quarentena sobre as crianças saudáveis superam de longe os benefícios que o isolamento possa trazer.”

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (ODCE) divulgou um relatório detalhando os danos globais que a resposta à pandemia está causando à saúde e ao bem estar econômico e social das crianças, especialmente às mais pobres. A recomendação da OCDE para combater esses efeitos prejudiciais é aumentar a intervenção dos governos, principalmente nos serviços sociais, de saúde pública e educação.

Mas acrescentar mais camadas de envolvimento do governo para consertar os problemas criados pelo próprio governo e suas políticas de lockdown é colocar curativos em feridas que se curariam sozinhas, com o afrouxamento dos bloqueios, por exemplo.

O que os pais podem fazer?
E, então, o que os pais podem fazer? Mesmo que não possam suspender as ordens do governo, os pais podem suspender algumas práticas de isolamento social que eles mesmos adotaram para ajudar suas crianças e adolescentes e assim evitar o isolamento permanente e as consequências danosas que surgem com o distanciamento social.

Tome ações para conectar seus filhos com outras crianças, incentive interações sociais e brincadeiras, e encoraje as crianças mais velhas e os adolescentes a contactarem seus amigos para organizarem encontros presenciais.

Se as escolas não estão abertas para o ensino presencial, considere a possibilidade de criar uma “bolha”, um grupo consistente de brincadeiras e aprendizado, e incentive seus adolescentes a formarem pequenos grupos de aprendizado.

Deixe para trás esse controle assustador que o governo vem fazendo sobre a vida de sua família, e questione os políticos e especialistas que continuam a dizer a você, e especialmente aos seus filhos, para ficar em casa.

Kerry McDonald é pesquisadora de educação na FEE, pesquisadora-adjunta no Cato Institute e colaboradora regular da Forbes.”

Fonte – Gazeta do Povo




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