Campo Grande, 26 de janeiro de 2021

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Artigos • 26 nov, 2020

O PT, de Carolina a Boulos ( Antônio Britto )


O partido vê-se envelhecido – Abre brecha para novos rostos – Perde lugar para antigos aliados

Lula e Gleisi Hoffmann, em cerimônia de posse da presidente do PT, em 2017Sergio Lima/Poder 360 – 5.mai.2017

Chico Buarque de Hollanda, gênio da MPB, é um antigo e consistente apoiador do PT. Especialmente às vésperas de eleições, o partido corre a buscar seu testemunho, declaração de votos e participação (quando permitido) em shows ou atos públicos. Além, é claro, de ter se beneficiado do constrangido silêncio dele diante de escândalos protagonizados no governo Lula.

Está na hora, acabam de dizer as urnas, de o PT ouvir ao menos uma das músicas de Chico.

“Eu bem que mostrei a ela
o tempo passou na janela
e só Carolina não viu”.

O partido e seu líder máximo, Lula, não são nem os primeiros nem os últimos a enfrentar um fenômeno simples: perderam o contato com a realidade e, por isto, a adesão da população. No imaginário de seus eleitores trocaram o palco da esperança por um espaço na memória. Se consolo servir, o PT não está sozinho. Tem como companheiros de velhice o MDB, aquele das “diretas já” e o PSDB, aquele do Plano Real, todos asilados em algum lugar do passado onde também repousam empregos com carteira assinada, sindicatos fortes, comícios, bandeiras nas ruas e um Brasil muito menos diversificado e complexo que o atual.

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Não é, portanto, coincidência que na semana em que o PT teve um desempenho pífio nas urnas, Barack Obama, a 8.000 quilômetros de distância, definia Lula como um líder popular, cujo governo promoveu distribuição de renda e grandes escândalos de corrupção. Bem pertinho dos fatos, a presidente do PT, por meio das redes sociais comentou a declaração de Obama para acusá-lo de envolvimento na…. Lava Jato.

Curioso. O PT cada vez mais assume uma das principais características do bolsonarismo: a negação. Recusa-se a uma, uma só, palavra de arrependimento ou autocrítica diante da corrupção que não criou, é verdade, mas transformou em forma de atuação política. Defende o diálogo com outros partidos e a formação de frentes desde que siga com o monopólio da liderança que já não detém na sociedade ou nas eleições. Transforma alguns de seus líderes –como Haddad e Rui Costa– em reféns, proibidos de defenderem as transformações em que acreditam e a refundação do partido sob pena de serem enviados a uma Sibéria politica tropical.

Alguns levantamentos mostraram que, em média, o PT apresentou candidatos com mais idade que alguns de seus competidores dentro da esquerda. O problema, porém, é mais grave e independe da certidão de nascimento: é o absurdo envelhecimento do que propõem.

Em um cenário assim, nada mais natural que os votos mudem de destino. Os poucos vitoriosos no domingo passado, nesta faixa política, têm características em comum: são mais jovens, estruturam sua estratégia a partir de uma grande capacidade de comunicação, mostram desenvoltura nas redes sociais, dedicam grande espaço ao reconhecimento e defesa da diversidade na sociedade brasileira, e, acima de tudo, suavizam o discurso.

Quem assiste debates ou programas eleitorais pela TV, especialmente em Porto Alegre e São Paulo, notará que não são apenas o vermelho, a barba desgrenhada ou a defesa de Maduro que sumiram nesta eleição. Radicalismo e ideologia também desapareceram de campanhas que escolhem, cuidadosamente, o terreno neutro de palavras e temas como “quero debater propostas”, “apostar no debate”, “ouvir quem não nos escolhe”, “governar de forma diferente”, “democracia não é só governar com quem concorda com você”.

Independente do que ocorra no 2º turno, as eleições municipais de 2020 trazem esta novidade –uma esquerda de cara nova e que deveria preocupar por razões diferentes a Bolsonaro e aos que congestionam, sem avançar, o espaço do centro.

A fragilização de Lula e do PT recomenda não se apostar em uma nova polarização entre direita e esquerda que jogue para o colo de Bolsonaro votos de centro. E a emergência de nomes e posturas novas (some-se a elas Flávio Dino) que saem da esquerda acenando para os moderados deveria servir como tema para reflexão dos que, ao centro, pensam em ganhar eleições dando as costas aos temas da diversidade, sustentabilidade e combate à desigualdade.

Na mesma letra de Carolina, 50 anos atrás, Chico Buarque já tinha avisado.

“Uma rosa nasceu…
Uma estrela caiu.”

Antônio Britto Filho, 68 anos, é jornalista, executivo e político brasileiro. Foi deputado federal, ministro da Previdência Social e governador do Estado do Rio Grande do Sul.

O Poder360




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