Campo Grande, 20 de maio de 2019

Blog do Manoel Afonso

Opinião e atitude no Mato Grosso do Sul

Artigos

Artigos • 10 fev, 2019

Quantos Pelés o Brasil perde sob o fogo?


Não fossem as chuvas que assolaram o Rio de Janeiro e a tragédia do Ninho do Urubu teria sido ainda maior.

Porque as águas, ainda de fevereiro, que fizeram da cidade o caos, e mataram sete pessoas, obrigaram a suspensão dos treinamentos da garotada e a dispensa dos que moram na capital fluminense.
Mesmo assim, o fogo dizimou dez vidas e queimou três meninosprovavelmente de maneira irreversível.

Uma tragédia traz a outra e às vezes, por ironia, as evita, embora a de Mariana não tenha minimizado a de Brumadinho, ao contrário.

É o legado olímpico da bela ciclovia que despenca pela terceira vez por água abaixo, são as pontes e os viadutos paulistanos que viram armas tão letais como as da bandidagem a nos amedrontar, as ilegais e as legais, em mãos impróprias e temerárias. É o Brasil.

São 519 anos de um processo nada civilizatório, de escravidão disfarçada, de exclusão inominável, de injustiça social perversa, patrocinada pela elite branca neste país racista de maioria negra.

sonho dos meninos rubro-negros de ouvir seus nomes entoados no Maracanã virou bola de fogo, pesadelo a atormentar para sempre as mães e pais para os quais eles buscavam o conforto de promover vidas confortáveis.

Quantos Pelés o Brasil perde diariamente sob o fogo das mais diversas origens, sejam das autoridades ou dos milicianos?

Quanta solidariedade demagógica se esgota em notas oficiais dos que continuarão a persistir no dia seguinte em suas práticas perversas?

A desgraça é tamanha que se torna secundário saber se o incêndio aconteceu num puxadinho ou hotel de luxo.

Porque certamente em abrigo melhor do que os meninos do Flamengo estavam acostumados em suas casas.

Meninos que têm no futebol a única possibilidade de ascensão social nesta sociedade voltada para o próprio umbigo, incapaz de ceder os anéis para preservar os dedos ao preferir se esconder em carros blindados e condomínios fechados, de costas para métodos comezinhos de segurança que, ao menos, minimizem riscos.

Alguém disse nestes dias trágicos que há acidentes inevitáveis, embora causadores de tragédias previsíveis.

E é a mais pura verdade. Mas, por quê?

Que raio de país é este, uma das dez maiores economias do mundo, ainda tão selvagem?

O que mais precisa acontecer para rompermos tal estado de coisas e começarmos a ser um lugar razoavelmente civilizado? Que futuro garantiremos aos nossos filhos, filhas, netas e netos?

A ganância acima de todos, o diabo acima de tudo?

“Os que tornam a revolução pacífica impossível fazem a ruptura violenta inadiável”, disse um líder político assassinado friamente. E não foi o argentino Ernesto Che Guevara.

Foi o americano John Fitzgerald Kennedy!

O mais triste de tudo é saber que as vítimas da linda ciclovia, da terrível lama de Mariana e Brumadinho, da água nas encostas das zonas de risco, dos viadutos que desabam sem manutenção, do fogo das armas descontroladas ou dos incêndios criminosos ou acidentais, nas favelas ou alojamentos, foram, são e serão em vão.

Porque amanhã será outro dia igual a todos os demais.

“É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho

É um caco de vidro, é a vida, é o sol

É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol (…)

É o fundo do poço, é o fim do caminho

No rosto um desgosto, é um pouco sozinho”.

Juca Kfouri

*Publicado na Folha de S.Paulo




Deixe seu comentário