Campo Grande, 19 de outubro de 2018

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Artigos • 14 set, 2018

Reflexões sobre o ódio que nos move


 

Vivemos a era do contra. Nós contra eles. Eles são horríveis. Eles são corruptos. Eles são a pior coisa que já existiu no planeta Terra.

Nós? Bem, nós nos protegemos uns aos outros. Não importa mais a nossa própria moralidade, o importante é destruir o outro. As armas estão apontadas e não há como fugir – todos somos nós e eles simultaneamente, só depende do lado da trincheira para o qual se olha. Estamos todos na linha de tiro – ou da faca. Unidos pelo ódio.

A realidade é familiar a qualquer brasileiro, mas comecei essa reflexão a partir de leituras sobre a política norte-americana. Democratas versus republicanos, a era do ‘against’ em vez do ‘for’. Trump chamando imigrantes de animais. Críticos comparando Trump a um chimpanzé. Um artigo publicado neste ano por Thomas Edsall no New York Times – ‘What motivates Voters More than Loyalty? Loathing’ (O que motiva eleitores mais do que lealdade? Repulsa) -, por exemplo, oferece dados interessantes para quem está disposto a refletir sobre a conjuntura política atual com algo mais do que o próprio fígado. Ele fala sobre a realidade dos Estados Unidos, embora os paralelos com a do Brasil sejam inevitáveis. Alguns destaques:

  • Pesquisadores concluíram que o que principal fator que motivou os eleitores a votar na última eleição americana foi o repúdio ao candidato da oposição (Hillary ou Trump), e não a admiração pelo próprio candidato.
  • Um estudo mostrou que a percentagem dos eleitores com opiniões favoráveis aos candidatos dos partidos que apoiam chegou ao menor patamar desde que o índice começou a ser estudado nos Estados Unidos. Caiu de 76,5%, em 1968, para 60,9% nas eleições que resultaram na vitória de Trump, em 2016.
  • Qual o problema? O primeiro é que, nessa lógica de nós contra eles, os candidatos se tornam “menos propensos a serem reprovados por demonstrações de incompetência e falta de ética”. Os eleitores passam a se comportar como torcedores, mirando no adversário e protegendo eventuais deslizes do seu partido. Um exemplo? Um candidato republicano ao Senado em Alabama foi acusado de abusar sexualmente de adolescentes. Mesmo assim, atraiu 91% dos votos entre republicanos. Entre um pedófilo e um democrata, preferiram o pedófilo.
  • Como consequência, a ‘tática de construção do inimigo’ se sobrepõe à defesa de projetos sociais. As campanhas passam a ser guiadas pelo ímpeto de “demonizar, difamar, deslegitimar e desumanizar o adversário”, como descrevem os autores do livro ‘Enemy Construction and the Press’.
  • Tá, mas e aí? E aí que a história já nos ensinou do que o ódio é capaz. Essa é a lógica do nazismo (que não por acaso também está em ascensão entre grupos racistas de extrema-direita nos Estados Unidos e na Europa). Em seu artigo, Edsall lembra as recomendações de um teórico nazista, Carl Schmitt, para os seus partidários: “considerar o outro lado como inteiramente criminal e desumano totalmente sem valor”. Ou seja, retirar a humanidade do outro é a primeira condição para aniquilá-lo.

Essa era de extremos já elegeu Trump nos Estados Unidos, e pode resultar na eleição de um candidato que defende práticas como a tortura e o extermínio dos pobres no Brasil. É com essa mudança que sonhamos? Ou a realidade foi tão corrompida que já estamos todos condenados a um mundo distópico? Deixo para cada um tirar suas próprias conclusões. Apenas desconfio que, antes de sair atacando, seja importante fazer uma autocrítica (tanto à esquerda quanto à direita, se é que essas divisões ainda fazem sentido), para entender como chegamos até aqui. O que podemos depositar nas urnas além do nosso ódio coletivo?

Fonte – Site Coletiva Net

Letícia Duarte é jornalista, mestre em Sociologia pela Ufrgs e mestranda no programa de Política e Global Affairs da Escola de Jornalismo daUniversidade de Columbia, em Nova Iorque.




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