Campo Grande, 25 de setembro de 2020

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Artigos • 03 ago, 2020

A REJEIÇÃO AO ISOLAMENTO NÃO TEM CULPADOS, SÓ VÍTIMAS


(Por Dante Filho)

Pelos dados atuais, a adesão ao isolamento social em Campo Grande é baixa. Há evidente rejeição social à medida. Mais de 65% da população desobedece. A justificativa contra-intuitiva para o horror de muitos – é de que o confinamento destrói a economia e provoca o caos social.

Conseqüentemente, crescem os índices de contágio, de casos graves e de óbitos pelo Covid. Enquanto não houver a “imunidade do rebanho” e não chegar a vacina salvadora, a polêmica permanecerá, com a mídia farfalhando sobre fatos impactantes do dia a dia.

Com isso, a onda de apontar dedos para encontrar culpados permanecerá. Uma coisa é o vírus, outra são os déficts seculares e estruturais da saúde e, no meio dessa barafunda, o mimimi político difuso que mais confunde do que explica a ordem natural das coisas.

A imprensa, nessa história, apenas coloca a cereja no alto do bolo, transformando informação num evento feérico para o entretenimento das massas. Provoca pânico, causa histeria, aumenta a confusão e, com isso, ajuda a matar gente impondo o discurso de que está ajudando a salvar vidas. Tudo lorota.

O segredo para superar o momento é respirar fundo e ter paciência. Claro, isso não tira gente do necrotério nem mitiga dores, mas ajuda cada um a compreender melhor a sociedade que inventamos.

Desde o começo da pandemia, a idéia de ficar em casa, usar máscaras, manter o distanciamento social foi um apelo sem muita ressonância dentro de casa, mas hegemônica nos meios de comunicação. Na verdade, tal fato ocorreu em muitos lugares, mas pouco a pouco, com altos e baixos, alguns resultados apareceram.

Não é fácil dar um cavalo de pau na realidade. A crise se instaurou. A recessão mundial passou a ser um dado concreto no cotidiano e, paradoxalmente, liberais mudaram de idéias, socialistas viraram fanáticos da democracia e a extrema- direita transformou-se em defensora da liberdade de expressão.

Tudo muito lógico…

Ou seja: diante do caos ninguém desmente categoricamente que medidas de isolamento funcionam meia-boca, embora não abra perspectiva de futuro. É nessa hora que surgem charlatães e aventureiros de todos os tipos. Oremos…

Autoridades públicas, diante das evidências de que as pessoas sempre tentam burlar qualquer regra que impeça seu sacrossanto direito de ir e vir, foram obrigadas, em determinado momento, a impor medidas mais duras: lockdown, quarentena forçada, toque de recolher etc.

Médicos, infectologistas, sanitaristas concordam e apóiam: o confinamento é a principal salvaguarda do contágio corpo a corpo. Esse pessoal há muito tempo estuda os mecanismos de mutação e circulação viróticas, comparando as experiências históricas de séculos e séculos de epidemias e pandemias, desenvolvendo remédios e tecnologias cada vez mais sofisticadas para a cura. Eles se autodenominam de “a ciência”, sobre tal e qual autoridade não se deve contrapor.

Mas todos observam – diante do pouco que se sabe sobre esse vírus – que estamos diante de algo novo, embora superável, cujas ocorrências poderão acontecer de tempos em tempos devido às mudanças ambientais. O grande problema é o tempo de resolução. Milagres não acontecem. Tudo leva a crer que os próximos doze meses serão punk.

Assim, quando lidamos com o invisível e o microscópico, não se pode evitar que pessoas neguem as doenças, ainda mais quando elas têm as características do novo corona vírus: seu principal vetor e propagador é a própria humanidade, com seus hábitos e vícios, atingindo de diferentes maneiras cada indivíduo. Além disso, há o componente político, os interesses econômicos e uma clara divisão de opiniões sobre o tema.

Nesse aspecto, o Covid-19 tem uma grande estufa de proliferação no corpo e nas mentes, ganhando mais ou menos espaço no lugar onde se espalha, adquirindo dimensões babélicas quando há mais incertezas do que conclusões definitivas.

Campo Grande, por exemplo, tem algumas características urbanas que desfavorecem e favorecem ao mesmo tempo a proliferação do vírus, conforme pudemos notar nos últimos meses. É uma cidade arejada, exposta a grande incidência solar, quente, muita área verde, largas ruas e avenidas, com regiões rarefeitas demograficamente.

Ao mesmo tempo, tem deficiências estruturais e climáticas (períodos de estiagem prolongados), poucas opções de lazer e centraliza a maior fatia da população do Estado, com boa estrutura de serviços.

A complexidade urbana da Capital vitaliza suas características culturais ao mesmo tempo em que fragiliza sua sanitarização. Por isso, no começo da pandemia (lá pelos meses de janeiro e fevereiro) com medidas protetivas básicas, fechamento provisório do comércio, alertas sobre os cuidados a serem adotados, a vida fluiu, mesmo com o presidente da República emitindo sinais contrários e fomentando a desobediência civil.

O comércio foi fechado, as aulas foram suspensas, a circulação foi reduzida e as aglomerações foram proibidas. Imaginava-se que em dois meses tudo estaria de volta ao normal. Como se sabe, não aconteceu. Mas deu certo enquanto durou.

Hoje a situação é mais difícil. No começo de junho foram emitidos sinais de alerta de que o pior ainda não havia passado. Até então havia um relativo consenso de que Campo Grande vivia uma situação tranqüila e que a pandemia não ia nos alcançar de maneira drástica. Quem alertou que as coisas iam piorar tinha razão. Só que poucos ouviram…

Se pudessem voltar ao passado recente, é provável que algumas autoridades tivessem assumido uma posição de cautela, mostrando que as medidas adotadas até então não haviam sido suficientes e que todos se preparassem para tempos difíceis. Isso foi dado de barato, mesmo porque tudo é novo, nada é igual, não sabemos ainda com o que estamos lidando.

Ser profeta depois dos fatos consumados é muito fácil.
Mesmo assim, no contexto geral, o quadro em Campo Grande é reversível, os números podem ser ora preocupantes, mas as estatísticas demonstram certo conforto, apesar das ocorrências de novos casos e dos óbitos, situações em que nenhuma sociedade humana sabe lidar direito, tirando, é claro, aquele sujeito que tem certeza que de o vírus é coisa de comunista.

Olhando as estatísticas, Campo Grande tem quase 1 milhão de habitantes. O número de contágios (notificados e não notificados) não ultrapassa os 2%. Os óbitos não chegam a 1%. Mas isso não interessa a quem perdeu um familiar, um amigo a um conhecido. A dor da perda destrói qualquer cálculo matemático.

Vejo autoridades públicas em completo desconforto com a situação. Ninguém gosta de ver a falta de leitos hospitalares e equipes de saúde à exaustão sem poder fazer muita coisa.
Pais e mães de estudantes estão com medo da volta às aulas. E, ademais, políticos não gostam de dar tiro no pé, impondo o “fecha-tudo” em período eleitoral. Essa é a realidade.

Mas a pergunta de ouro ainda não foi respondida: por que há tanta resistência na sociedade brasileira em cumprir as regras básicas de isolamento social? Ignorância? Pobreza? Desprezo pelo perigo? Revolta com o jornalismo funerário da Rede Globo?

Acredito que tem de tudo um pouco. A sociedade brasileira sempre foi anárquica. Mas é preciso lembrar também que vivemos no apogeu da Era do Consumo, com sua tentacular influência nos modos de vida, nas instituições e nos imperativos que combinam individualismo, hedonismo e a famosa ideologia da soberania do sujeito.

Tudo que foi edificado nos últimos 200 anos de nossa história no campo dos costumes, da moral, da moda, da arte, do comércio, das mídias, foi estruturado nas concepções dos modernismos e seus pós para que tenhamos um tipo de vida controlado pelo dinheiro, pelo hiperconsumo e pela imensa farra dos existencialismos ora em voga.

Querer que as pessoas puxem o freio e contrariem suas razões de viver pode até ser imaginado ou reivindicado em nome da razão, da empatia, da humanidade latente, mas trata-se de reverter todo o subjetivismo que nos constituiu como indivíduos nos tempos da modernidade. É muito complicado.

Não se transforma uma cultura arraigada há séculos em apenas 5 meses. Por isso, para fazer valer o apelo das vigas mestras do isolamento social não basta ser bonzinho e engajadinho nas redes sociais. É preciso mais, ou seja, é preciso instaurar um Estado de Exceção que contrarie os preceitos democráticos. Será que as pessoas estão dispostas a morrer em nome do soterramento de um mundo que perfaz de cima até abaixo suas razões de viver?

Vejo as autoridades e os professores de deus revoltadíssimos com a desobediência dos festeiros de fins de semana, dos consumidores andando pelas ruas sem máscara, “gente sem noção”, mas eles esquecem que estes estão apenas reproduzindo a longa pedagogia de que “ninguém manda em mim fora do trabalho.

Nossa sociedade democrática – logo após a Revolução Francesa – foi aprendendo que todo cidadão (ã) tem o dever moral de defender suas causas. Quem critica ou defende o isolamento primeiro tem que saber que o sujeito histórico moderno não abdica de ter sua própria leitura da realidade.

Por isso – se isso serve de consolo – paciência deve ser a palavra do momento. Seguir a vida como se pode: navegar, resistir e resignar. Não tem outro jeito.

Observação: quem leu esse texto até aqui, por favor não se esqueça: dia 07 tem life do Caetano




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