Campo Grande, 19 de junho de 2018

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Artigos, Crônicas • 03 mar, 2018

TODO MUNDO É PÉ NA COVA


FERNANDA DANNEMAMM
Meu pai tem uma veia que, se estourar, babau.
E enquanto esperamos que a burocracia seja resolvida, para que finalmente
ele possa ser operado, tentei reconfortá-lo.

— Paciência, pai.
— Paciência é tudo o que não tive nessa vida – respondeu, tristíssimo.

Tremi nas bases ao pensar na crueza da situação: se a veia estourar… lá se
vão 79 anos.

Mas então penso na minha amiga Carla, cujo filho de 12 saiu para uma
festinha e não voltou, justamente por causa de uma veia que se rompeu.
Doze anos, quem imaginaria? E a Carla conseguiu sobreviver para, depois,
voltar a viver: hoje é feliz de novo, e tem tanta força interior que consegue
levar conforto emocional a pacientes terminais que sofrem num hospital
público.

O que normalmente a gente não assimila é que, “para morrer, basta
estar vivo”. Deveríamos aprender com este ditado popular e aplicar seu
contrário: para viver, basta estar vivo…

Você já percebeu que nem sempre a morte está realmente perto de quem
parece estar? Ou longe de quem parece estar? Quantas mães cardiopatas
tiveram que, repentinamente, enterrar filhos jovens e saudáveis, e
continuaram vivinhas da silva durante anos, sustentando a moral e a união
da família inteira? Histórias assim são muito, muito comuns!

A ilusão da juventude cria nas pessoas a sensação de imortalidade ou, na
mais real das hipóteses, de que o fim está muito longe. E o triste disso é
que, contando com o imenso tempo que temos pela frente, adiamos o que
realmente importa: nos detemos nos problemas e nas insatisfações, em vez
de curtir as muitas coisas boas que temos ao nosso alcance.

Meu amigo Roberto se sente velho aos 63 anos. Talvez não tenha visto, no
espelho, o quanto seus olhos são jovens. Talvez não tenha entendido que
sua sede de conhecimento e de vida é o maior sinal que sua juventude lhe
dá. E vejo que outros amigos, na casa dos 30, o consideram um “senhor”.

Meu irmão, por volta dos 48, acha um absurdo meu pai ter saído para o
baile, ter dançado até altas madrugadas. Mais absurdo ainda, que ele tenha
namorada, que seja amigo da ex-mulher, que se recuse a parar de trabalhar,
que sonhe com viagens, com negócios mirabolantes… que ainda receba
convites para trabalhar.

— Por isso é que ficou doente! Ele lá tem idade pra isso?!

Histórias como estas me fazem ver que somos todos pé na cova; a morte
está aí para todos os vivos! E ainda me ensinam que podemos errar
tremendamente em nosso julgamento sobre quem é jovem e quem já
envelheceu há muito tempo… mesmo que o espelho não nos diga isso lá
muito bem…

Lembre-se: para viver, basta estar viv



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