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Artigos • 28 nov, 2019

Vamos apagar o passado? (artigo)


Mariliz Pereira Jorge)

Muitos artistas se comportaram de forma que hoje seria considerada inaceitável

Michael Jackson é pedófilo. “Leaving Neverland”, documentário da HBO, não deixa dúvida. Assim como sabemos que Rodin reprimia Camille Claudel. Gauguin está prestes a ser cancelado porque fazia sexo com adolescentes e chamava os polinésios de selvagens.

A lista de artistas pedófilos, machistas, xenófobos, mancomunados com regimes autoritários é grande. Gente que vem entrando no radar do revisionismo histórico, artístico e cultural. O alvo mais recente de protestos é Elizabeth Bishop, homenageada da próxima Flip.

A escritora americana, que morou duas décadas no Brasil, apoiou o golpe militar de 1964 e desdenhava da cultura local. Mas a curadoria do evento entendeu que sua relevância artística é maior do que suas opiniões pouco elegantes e democráticas.

Não é o que deveríamos fazer em relação a nomes consagrados que têm tido detalhes nefastos de suas vidas revelados? Podemos desprezar a pessoa, mas admirar sua arte? O real caráter dos artistas poderia contribuir para que sua obra seja mais bem entendida? Ou vamos olhar para o passado com a lente do presente e mandar para a vala do esquecimento alguns dos maiores gênios da história?

O incômodo, dizem os críticos de Bishop, é que no momento em que as instituições têm sido desafiadas não seria adequado exaltar um artista assim. O que me incomoda é ver tanta gente preocupada com retrocessos e censuras fazendo o que dizem condenar: impor à Flip quem pode ou não ser homenageado.

A discussão é importante, mas não podemos apagar o passado. O mundo já foi pior, e muitos artistas se comportavam de forma considerada, hoje, inaceitável. Ainda acho Michael Jackson um gênio, mas ouvir a péssima “We Are the World” causa repulsa. Não vou deletar algumas das melhores lembranças da vida embaladas por “There Is A Light That Never Goes Out” porque Morrissey é um babaca racista. Acho possível tentar separar as coisas.

*Publicado na Folha de S.Paulo




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