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Esporte • 17 jan, 2020

Sem dinheiro e doente, ex-goleiro Manga é abraçado por uruguaios


Time do Nacional campeão da Copa Libertadores de 1971. Primeiro em pé, da esq. para a dir., está o goleiro brasileiro MangaTime do Nacional campeão da Copa Libertadores de 1971. Primeiro em pé, da esq. para a dir., está o goleiro brasileiro – Nacional

Da FSP, em reportagem de Bruno Rodrigues

Torcedores do Nacional pagaram viagem, hospedagem e tratamento do brasileiro

Cônsul do Uruguai no Equador, Mateo D’Costa enviou uma mensagem ao amigo Enrique e perguntou se ele poderia atendê-lo por telefone. A razão de sua preocupação não estava relacionada ao trabalho diplomático. Era estritamente afetiva.

“Enrique, o Manga está mal. O atendimento à saúde aqui no Equador está complicado, e ele quer morrer no Uruguai”, disse o cônsul.

Manga é Haílton Corrêa de Arruda, 82, goleiro da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1966 e ídolo de Internacional e Botafogo, no Brasil, e do Nacional, no Uruguai. Ele vive no Equador desde que pendurou as chuteiras, após defender o Barcelona de Guayaquil no início da década de 1980.

Mateo e e o contador Enrique Singlet, 51, fazem parte de um coletivo de torcedores do clube uruguaio chamado Campeón Para Toda La História. O grupo, que reúne 16 fanáticos (quase todos em Montevidéu), faz um trabalho independente de preservação da memória da equipe.

A partir da notícia do cônsul, seus membros passaram a discutir de que forma auxiliar o ex-goleiro. Descobriram que Manga e sua esposa, a equatoriana Cecilia Cisneros, tinham passagens compradas de Quito para Porto Alegre. O ex-jogador, na época, sofria de insuficiência renal aguda.

Mateo entrou em contato com Cecilia e se encarregou de mudar as passagens. Em vez de Porto Alegre, os dois viajaram para Montevidéu, em setembro de 2019. Foi a saída que o coletivo encontrou para realizar o desejo do ídolo: encerrar a vida no Uruguai.

A multa para alterar o destino custou US$ 854 (R$ 3.500), pagos por Mateo. Depois, ele foi reembolsado pela associação Nostálgicos del Fútbol de Uruguay, que ajuda ex-jogadores do país em dificuldades.

A trupe da Campeón Para Toda la História lançou uma campanha de arrecadação de fundos, que seriam destinados aos cuidados de Manga. No total, conseguiram pouco mais de US$ 6.000 (R$ 25 mil).

Um dos torcedores do grupo, Matías Montiel, 30, disse que não poderia ajudar com dinheiro, mas se dispôs a receber o ídolo num quarto que até então servia de depósito em sua casa.

“Ele [Manga] acabou adiantando sua viagem em dois dias, então só terminei de pintar o quarto às 2h da manhã, com a ajuda do meu filho [Cristiano, 5 anos], e às 3h fomos para o aeroporto buscá-lo”, conta Matías à Folha.

Na madrugada do dia 11 de setembro, três carros com torcedores do Nacional foram ao aeroporto de Carrasco receber Manga. O ex-goleiro chegou ao país em uma cadeira de rodas e deprimido. Do local, partiram para um hospital, onde o brasileiro realizou os primeiros exames.

Havia o temor de que Manga pudesse estar com câncer de próstata, mas na verdade se tratava de uma inflamação da região, o que desencadeou problemas renais. Ele foi obrigado a utilizar uma sonda no pênis.

Do hospital, o ídolo partiu para a casa de Matías, que trabalha como entregador de uma empresa de pães e vive com a mãe, a mulher e o filho. O quarto reformado pelo uruguaio para a chegada do ex-goleiro ganhou móveis e TV graças ao grupo, que ainda pendurou uma bandeira do Nacional na parede.

“Minha mulher e minha mãe são do [rival] Peñarol. Fizemos um trato que não haveria nada do Peñarol ou do Nacional em casa. Só coloquei a bandeira para ele se ambientar”, brinca.

As duas primeiras semanas foram difíceis, como relembra Matías. Em poucos dias de Uruguai, Manga se sentiu mal e precisou ser levado com urgência para um hospital.

Para que recebesse acompanhamento médico adequado, o grupo contou com a ajuda de Jorge da Silveira, um importante jornalista uruguaio que cobriu a passagem de Manga pelo Nacional quando jogador. “Toto”, como é conhecido, pôs o coletivo em contato com a associação mutualista de saúde Asociación Española.

O presidente da entidade conhecia o pai de Enrique e topou cobrir todos os gastos do tratamento de Manga. “Operaram ele 20 dias depois dessa reunião. Já está sem a sonda, a cicatriz ficou perfeita. Hoje está com 10 kg a mais do que quando chegou”, afirma o contador.

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