Campo Grande, 03 de agosto de 2020

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Artigos, Política • 09 jul, 2020

É preciso compreender que crescer é diferente de prosperar


Quase todos os comentários sobre a atual situação do Brasil, antes e mesmo após o corona, apresentam o seguinte discurso: “é preciso fazer tal coisa, reformas essa e aquela, para o Brasil voltar a crescer”. Voltar a crescer é objetivo quase único, e então segue-se dizendo que é preciso crescer para gerar emprego, para ficarmos mais ricos etc., etc. Assim, crescer veio a se tornar sinônimo de prosperar, de construir uma vida digna e respeitável. Isso é justificável?

Imagine-se crescendo, sem parar, dentro de um espaço finito: um quarto, uma sala ou mesmo uma esfera. Você acha que crescimento é prova de vitalidade. Quando você era pequenino, quase um micróbio, o espaço disponível no útero parecia infinito; você cresceu e foi expulso de lá.

Por séculos a quantidade de humanos era tão pequena que o espaço do planeta parecia infinito. Hoje, somos quase oito bilhões, extraindo, transformando, consumindo e descartando quantidades crescentes de produtos, já muito além da biocapacidade do planeta. Já se disse que uma pessoa de renda média baixa, hoje, dispõe de mais objetos, consome e polui os recursos naturais mais que muitos grandes reis e rainhas de outrora!

De irrelevante, quando saiu da África, nossa espécie tornou-se uma nova força da natureza. Crescemos tanto que já estamos apertados, com dificuldade até de respirar: no mundo, são sete milhões de mortos anualmente em razão, apenas, da poluição atmosférica. Isso é a soma das populações de Belo Horizonte e de Porto Alegre, e mais que os mortos no holocausto!

Mesmo assim, não se acredita na nova realidade, e busca-se continuar a crescer. Muitos esperam um Salvador para evitar o desfecho inevitável de crescer (quase) sempre dentro de um espaço finito. Esse Salvador, hoje, chama-se tecnologia. Fica para depois o que é urgente: mudar o rumo, mirar não o crescimento mas sim a prosperidade.

É certo que muitos tomam prosperidade como sinônimo de riqueza, mas há também a interpretação segundo a qual ela traduz satisfação com vida que se vive, não apenas com a conta bancária. E essa satisfação com a vida que se vive depende, sim, da conta bancária, mas depende também de muitas outras variáveis, que a ideia de sempre crescer não capta; pelo contrário, descarta!

Para prosperar, em seu sentido mais amplo, precisamos substituir a ideia de sempre crescer pela ideia de melhorar a qualidade de vida, medida por dados que retratem a realidade da educação, da saúde, da segurança e de várias outras dimensões de uma vida próspera.

Por Eduardo Fernandes – Congresso em Foco




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