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Artigos, Política • 18 nov, 2019

Felicidade e virtudes (Luiz F. Pondé)


A esperança é a maior das virtudes hebraicas porque nos dá lugar no mundo

 Confesso que a palavra felicidade me causa certo enfado. As discussões sobre felicidade, normalmente, estão associadas, me parece, mais a causas de infelicidade do que propriamente a possibilidade de organizar algum saber que não seja imediatista, instrumental e imaturo sobre uma vida menos infeliz.

Em resumo, acho que o debate, incluindo a publicidade, sobre felicidade mais atrapalha do que ajuda, uma vez que vivemos um surto de depressão e ansiedade, principalmente entre jovens.

O modelo estratégico-pragmático, típico do paradigma do coaching e derivados, me parece causar mais expectativa e ansiedade, e, portanto, mais infelicidade, na medida em que trata a felicidade como um estado passível de ser alocado em metas existenciais, numa espécie de Excel existencial.

Evidente que a felicidade tem uma história na história da filosofia que transcende esse blablablá das pseudoterapias calcadas no Excel existencial. A verdade é que o entendimento de felicidade hoje é, em grande medida, construído a partir da ideia de realização de desejo, o que, na filosofia, sempre foi visto com uma certa desconfiança.

Gostaria de pensar hoje no vínculo entre felicidade e virtude, traço da escola antiga de Aristóteles.

O filósofo grego dizia que o objetivo da ética é a felicidade. Mas qual felicidade? Nessa direção, gostaria de pensar que, talvez, a felicidade menos banal esteja associada a um certo conjunto de virtudes práticas (arête ethikê), e não escrava da mera realização de desejo, como é comum pensar atualmente.

Se você consegue praticar na vida um certo número de virtudes, talvez você consiga atingir uma felicidade um pouco menos imatura.

Por exemplo, a prática da generosidade, virtude que combate dois vícios opostos, a mesquinhez e a prodigalidade (torrar dinheiro, em linguagem comum), nos ensina a partilhar de modo ordenado o que temos, e, assim, a nos desapegar dos excessos de amor aos bens materiais.

A leveza decorrente dessa condição pode produzir um estado de espírito que nos ajude a ver a vida numa perspectiva menos narcísica. Mas, como toda virtude, só se aprende praticando sempre.

Isto é: só se é generoso sendo generoso e não pensando como é importante sê-lo. O mesmo para a humildade, virtude contrária à arrogância e ao seu oposto, a auto-humilhação. O mesmo para a justiça, virtude contrária à perda do discernimento entre dar a alguém o que ele não merece ou negar a alguém o que ele merece.

A ideia de felicidade que daí surge significa um esforço de controle dos vícios, dando à pessoa um amadurecimento que nasce, justamente, da capacidade de ser constante neste mesmo esforço. Nada a ver com a mera realização do desejo, mas uma realização maior: aquela de aprender a controlar o efeito dos vícios sobre si. Daí a ideia de autonomia como forma da felicidade tão comum na filosofia grega antiga.

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