Campo Grande, 20 de julho de 2019

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Artigos, Política • 19 jun, 2019

Uma voz em busca do personagem (artigo/Dante Filho)


A primeira vez que ouvi a voz de Alcides Bernal num programa de rádio estava dentro de um táxi, coisa de um ano atrás. A impressão que tive era que atrás do microfone havia um sujeito suave, tranquilo, de uma neutralidade quase boçal. Juro que não consegui prestar muito atenção no que ele dizia.

A voz mansa, radiofônica, meio modulada, colocava sempre em segundo plano o conteúdo da fala em detrimento da maviosidade da forma. Perguntei ao taxista quem era o sujeito que estava falando e ele me respondeu: “É o Bernal, uai!”. Depois disso nunca mais ouvi falar do cidadão.

Fiquei sabendo depois que quando Alcides Bernal se tornou vereador e, logo depois, deputado estadual, sua existência era citada muito esporadicamente no noticiário, e eu, na minha suprema ignorância, conclui que ele era um daqueles caras que se aproveita de meio de difusão influente como é o rádio para se sustentar politicamente. Imaginei que esse tipo de “profissional” jamais ultrapassaria os limites dos cargos parlamentares, como é de praxe.

Como o mundo político é um grande mistério, o tempo passou e o agora candidato à prefeitura de Campo Grande pelo Partido Progressista (PP) tenta deixar o nicho restrito da audiência dessa massa disforme chamada classe C para ganhar espaço de ressonância política em toda a cidade, concorrendo ao principal cargo do nosso Executivo municipal.

No primeiro momento imaginou-se que Bernal era apenas um balão de vento. Ele havia tentado ser vice aqui e ali, mas por motivos ainda não sabidos, não conseguiu viabilizar este intento, decidindo então fazer uma jogada arriscada que, por enquanto, entre solavancos, tropeços e denúncias, vem dando certo.

Como escrevi outro dia acho que Bernal continua a ser um avião na pista atrapalhando a decolagem das candidaturas do PT e do PSDB. Podemos compará-lo muito por cima àquilo que Celso Russomano está representando nas eleições de São Paulo. Em Campo Grande, Bernal galvaniza parcela do eleitorado conhecido pela fluidez das decisões, embora saibamos que este eleitor está tentando sinalizar que procura algo “diferente” do status quo de nossa política local.

Bernal, contudo, não tem nada de novo: ele fala apenas trivialidades como “mudança”, “governar para as pessoas”, “redução de impostos” etc., tentando vestir um modelito que é o ramerrão permanente da política. Bernal é mais do mesmo. O que o diferencia é aquela voz doce que cativa.

Acima do “fenômeno Bernal” – que muitos acreditam estar “na frente das pesquisas” numa eleição em que, ironicamente, se tenta restringir a divulgação dessas mesmas pesquisas – aparece a renitente indiferença da população ao processo eleitoral. Acredito que há dois motivos aparentemente desconexos para a atual modorra das campanhas: pouco dinheiro e o calorão danado que dominou o clima num prolongado período de estiagem (fatores que desanimam mentalmente, embora isso possa mudar com a volta das chuvas e, quem sabe, com algum dinheirinho caindo do céu…).

Por enquanto, Bernal se beneficia da sua bela voz. Quem assiste aos seus programas eleitorais na TV percebe que o nosso locutor se diferencia dos demais pela sua placidez bovina. Enquanto a maioria dos candidatos é sanguínea, Bernal é anódino, leve, inofensivo, quase inocente.

Giroto, Azambuja e Vander, por exemplo, parecem personagens infantis de desenho animado (pilhados, fazedores de obra, “politizados demais”, dispostos ao embate partidário costumeiro e tradicional), enquanto Bernal segue fazendo seu “programa de rádio”, inabalável, falando pro seu zé e para a dona maria, como se estivesse ensinando receita de bolo e vendendo bíblias encadernadas nas portas das casas. É complicado.

A melhor forma de entender Bernal é assisti-lo na TV sem o áudio. Aí será possível perceber no seu olhar, na sua impassibilidade, naquela lenga-lenga plastificada, que ele é um sujeito sem alma. Se ele falasse acima do tom ficaria revelada a dimensão de seu aventureirismo, mas como ele é manso, despersonalizado, vago, superficial, fornece a impressão de ser incolor e inodoro, e, por conta disso, eficiente. E assim ele segue.

Bernal é treinado na linguagem do eleitor despolitizado, encantando pelo consumo e com ojeriza da política, e sabe que quanto mais sonso se fizer mais ele ganha espaço. Claro que seus nervos estão sendo colocados à prova e todos esperam que uma hora ele pisque. O mais paradoxal, porém, é que nascido pelas mãos do PT Bernal se apropriou do espírito do chamado lulismo teórico e, com isso, ironicamente, levará a candidatura petista a sofrer a mais formidável derrota de todos os tempos em Campo Grande.

(*) Dante Filho é jornalista (dantefilho@terra.com.br).




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