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Artigos • 13 nov, 2025

Confiança e esperança


(por Célio Heitor Guimarães) – 

Do alto de sua sabedoria, Rubem Alves dizia que a melhor coisa do mundo era poder escrever para o público. Mas, logo emendava que a pior também era. Nunca se sabe verdadeiramente o resultado, posto que, na maioria das vezes, apenas as discordâncias são publicadas. E normalmente, sem argumentos, apenas crítica pelo prazer de criticar.

De minha parte, já lhes disse e repito: colunista de jornal ou de blog é um ser solitário. Escreve para ser lido, mas nem sempre sabe se isso acontece. E, quando acontece, qual é o desenlace. Também não espera que o leitor concorde com as opiniões dele. Não pode nem deve. Mas, quando as manifestações aparecem, a favor ou contra, é sempre uma satisfação.

Mestre Zé Beto acha que escrevemos para nós mesmos. Numa das várias vezes em que decidi encerrar a luta e ele indeferiu a pretensão, disse que aprendeu isso com a caminhada. “Você precisa expor o que pensa em meio a essa balbúrdia incompreensível que é o mundo hoje”. Sublinhou: “escrever é o que sustenta nossa alma. E quanto mais vivemos, seguindo o conselho de Nelson Rodrigues, para envelhecer rapidamente, um pouco de clareza para olhar em volta a gente tem”.

Então, para preencher este espaço sagrado, hoje vou recordar ao eventual leitor a história do homem que gosta de flores. Nem meu é o texto, mas me foi enviado, tempos atrás, por um gentil amigo e o acolhi com prazer. É oportuno porque fala de confiança e esperança, artigos raros na praça.

O nome dele é Damásio de Jesus. É um homem que gosta de flores. E o seu gostar não é de hoje. Vem de longa data. Aliás, para ser mais exato, ele é louco por flores. Essa preferência – confessa – faz parte da sua própria natureza. Aprecia as flores sofisticadas, mas também ama as mais simples. Se alguém lhe perguntar como é, ele diz que é assim mesmo: é capaz de ficar horas e horas contemplando uma orquídea ou mesmo uma simples margarida.

Certa feita, Damásio quase perdeu o juízo. Neuza, sua mulher, levou-o a uma escola, em Bauru, no interior de São Paulo, e lá ele encontrou uma imensa árvore de folhas vermelhas. Resultado: durante uma semana, não falou de outra coisa. Ele queria uma árvore como aquela para plantar em Arealva. Pois Neuza lhe fez uma grata surpresa: deu-lhe de presente oito mudas da planta de folhas vermelhas, que se chama eretrina. E todas elas Damásio plantou.

Durante todos os anos cuidou pessoalmente de cada uma delas. Viu as árvores crescerem e, a cada ano, indagava: “Será que este ano elas florescem?” Ficou aguardando ansioso as flores vermelhas brotarem dos galhos. As plantas, porém, não davam a mínima para a impaciência dele. Mesmo assim, cresceram quatro metros.

Afinal, as árvores floresceram. Mas nenhuma flor nasceu vermelha. Desabrocharam brancas, feias, opacas, completamente desbotadas. Damásio ficou triste, decepcionado. Ele queria flores vermelhas, e elas nasceram brancas. Não se conformava de ter esperado tanto tempo em vão.

– Vou cortar estas árvores. Nós fomos enganados – disse à mulher.

Neuza interveio, com o bom senso feminino:

– Você esperou tanto tempo. Por que não espera um pouco mais para ver o que acontece? Quem sabe elas não nascem assim e, aos poucos, vão mudando de cor?

Não é que Neuza, para variar, tinha razão!… As flores brancas desbotadas, de repente, começaram, pouco a pouco, a ficar vermelhas. Um verdadeiro espetáculo. Um deleite. E Damásio sofre só de pensar que, por pouco, a sua impaciência não pôs tudo a perder.

Hoje, Damásio ensina a quem quiser aprender que na vida tudo é assim. Se você sonhou com uma coisa e recebeu outra, confie, espere.

– Se você crê em Deus – assegura – tenha a certeza de que Ele sempre dá o que você precisa, no momento certo. Por isso, em vez de duvidar ou reclamar, siga em frente. O espinho de hoje pode ser a flor de amanhã. É preciso saber esperar, dar tempo ao tempo para as coisas acontecerem naturalmente. Até mesmo as flores só mudam de cor quando chega a hora.




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