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Artigos • 21 abr, 2026

A fala destemperada de Trump


A fala recente de Donald Trump envolvendo o Papa Leão XIV não é apenas mais um episódio de sua conhecida retórica impulsiva. É, antes, um sintoma eloquente de um tempo em que a linguagem pública se degrada, perde filtros e abdica da liturgia mínima que se espera de quem ocupa ou já ocupou o poder.

Vivemos, de fato, um mundo alucinado, em que o verbo se antecipa ao pensamento e a palavra deixa de ser instrumento de construção para se transformar em arma de impacto imediato. O problema não está apenas no conteúdo, mas na forma. Há coisas que simplesmente não se dizem — ou, se ditas, exigem a metáfora, a elegância da indireta, o cuidado da diplomacia.

A história da política é, também, a história da linguagem. Dos discursos de Cícero à sutileza de Maquiavel, passando pelo cerimonial de Luís XIV, a palavra sempre ocupou papel central na construção do poder. Não por acaso, a liderança exige domínio da forma, do tom e da oportunidade.

Trump, ao contrário, parece cultivar o improviso como método e a grosseria como estilo. Ao tocar uma figura de elevada simbologia espiritual como o Papa, ultrapassa a crítica política e ingressa na indelicadeza gratuita. Não se trata de liberdade de expressão, mas de ausência de refinamento — uma linguagem que escorrega para o preconceito, o simplismo e a infantilização do debate.

Um estadista não precisa abdicar da firmeza para exercer a elegância. Ao contrário: a força política se expressa na capacidade de dizer sem ferir, criticar sem vulgarizar, discordar sem insultar. A diplomacia é, afinal, a arte de administrar conflitos por meio da palavra.

O episódio revela algo mais profundo: a erosão dos padrões civilizatórios no discurso público. Em tempos de redes sociais, a recompensa está no impacto imediato, no corte viral. O algoritmo premia o exagero, não a ponderação, e líderes que se adaptam a essa lógica acabam por reforçá-la, criando um ciclo de radicalização verbal.

O resultado é uma arena mais ruidosa e menos qualificada. O debate perde densidade, a argumentação cede ao ataque e a política se aproxima do espetáculo. O que deveria ser diálogo transforma-se em performance.

No caso da fala sobre o Papa, o dano não é apenas institucional ou diplomático. É simbólico. O Papa representa, para milhões, não apenas uma autoridade religiosa, mas um referencial moral. Atacá-lo de forma desabrida é desconsiderar esse universo — e os fiéis que nele se reconhecem.

É possível discordar do Vaticano e de sua atuação. Mas há formas. Entre a crítica fundamentada e a grosseria há uma distância que separa o estadista do agitador.

No fundo, a questão é simples: que linguagem queremos na vida pública? A que constrói pontes ou a que cava abismos? A resposta definirá não apenas o nível do debate político, mas a própria qualidade da democracia.

Professor emérito da ECA-USP, escritor, jornalista e consultor político




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