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Artigos • 21 abr, 2026

O fantasma do Alicerce


A classe média é o fantasma que paga a festa, mas nunca é convidado para dançar. Nos palcos das eleições, ela aparece como figurante: sustenta o cenário, ilumina o teatro, mas não recebe falas no roteiro. É como se fosse o alicerce invisível de uma casa que todos habitam – os pobres clamam por justiça, os ricos por estabilidade, e a classe média, esmagada entre privilégios inalcançáveis e carências legítimas, continua a sustentar o teto com seus ombros cansados.

O discurso político, em sua retórica inflamada, fala em “inclusão”, “redistribuição”, “crescimento”. Mas raramente fala em quem mantém o motor funcionando: o contribuinte que paga impostos sufocantes, o consumidor que movimenta o mercado, o profissional que não tem subsídios nem isenções, mas também não tem o luxo de se refugiar em fortunas. A classe média é o fiador silencioso da democracia, mas tratada como se fosse um detalhe burocrático.

Há aqui uma ironia cruel: o Estado combate a pobreza – e deve fazê-lo, pois é imperativo ético e constitucional – mas esquece que sem a classe média, não há base sólida para sustentar esse combate. É como construir uma ponte sem pilares. A invisibilidade da classe média não é apenas injustiça política; é erro estratégico. Porque ela é o “meio-termo” que garante estabilidade, o amortecedor entre extremos, o espaço onde se decide se uma sociedade prospera ou colapsa.

E, no entanto, nas eleições, ela é cortejada com promessas vagas, slogans genéricos, e depois descartada como se fosse apenas estatística. O sarcasmo se impõe: talvez a classe média seja lembrada apenas quando falta arrecadação, quando o Estado precisa de mais tributos. Nesse momento, ela deixa de ser invisível para se tornar alvo.

O olhar que se cobra é simples: reconhecer que a classe média não é luxo, não é privilégio, não é sobra. É a espinha dorsal. Sem ela, o corpo político não se sustenta. Ignorá-la é como ignorar o coração enquanto se cuida apenas dos braços e das pernas. O resultado é previsível: colapso.

Rio de Janeiro, 20/04/2026
Adgerson Ribeiro de Carvalho Sousa
– Advogado 




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