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Artigos • 08 maio, 2026

O extremismo moderado


(de Carlos Castelo) – 

O problema do moderado contemporâneo é que ele precisa parecer perigoso o suficiente para os radicais e civilizado o bastante para a sogra no almoço de domingo.
Antigamente era bem mais simples. O sujeito queria fechar o Congresso, prender opositores e transformar minorias em decoração de porão? Muito bem: chamava-se extremista de direita e pronto. Havia certa honestidade no ofício. Hoje não. Agora todos querem ser moderados. É uma época em que o cidadão ameaça metade da humanidade pela manhã e, à tarde, concede entrevista dizendo que foi mal interpretado.
Foi assim que apareceu a figura curiosa do extremista moderado, criatura semelhante ao vegano que come churrasco, mas só nos fins de semana.Imagine então o que seria um Adolf Hitler moderado.Um Hitler conciliador. Um Hitler de centro. Um Hitler que, ao invés de invadir a Polônia imediatamente, criaria primeiro um grupo de trabalho. Um homem firme, porém, dialogador.
Alguém que diria:
— Precisamos eliminar certas liberdades, mas com responsabilidade fiscal.
O Hitler moderado pisaria no autoritarismo com cautela democrática. Em vez de suásticas gigantes, talvez optasse por um logotipo mais clean, uma identidade visual mais sóbria, quem sabe em tons pastéis.
O bigode permaneceria, mas aparado por uma consultoria de imagem.Não haveria gritaria em comícios. O Hitler moderado falaria baixo, pausadamente, como quem explica um financiamento imobiliário.
Terminaria cada frase com “respeito opiniões divergentes”, enquanto divergências desapareceriam misteriosamente na semana seguinte.
A imprensa internacional diria: “Apesar de algumas declarações polêmicas sobre raça, perseguição política e eliminação de opositores, analistas consideram Hitler mais pragmático do que ideológico.”
Pragmático. Palavra maravilhosa. Serve para transformar fanatismo em plano de governo.
O Hitler moderado talvez não queimasse livros. Apenas cortaria verbas de bibliotecas por excesso de papel. Não proibiria partidos. Apenas criaria dificuldades técnicas para seu funcionamento, como exigir reconhecimento facial, certidão negativa de bisavós e comprovante de pureza ideológica autenticado em três cartórios. E teria apoiadores indignados:
— Chamam o Adolf de ditador só porque ele quer um pequeno controle absoluto sobre a sociedade. Que exagero!
A certa altura, alguém perguntaria:
— Mas se este é o Hitler moderado, como seria o radical? Não apareceria ninguém para responder.

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