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Artigos • 22 abr, 2026

O burro nosso de cada dia


(por Carlos Castelo ) –      

Em certas nações, a crise se resolve com ajuste fiscal; em outras, com ajuste de cardápio. Na Argentina, por exemplo, o burro ascendeu ao menu. Não como símbolo, mas como prato do dia.

É um avanço conceitual. Durante décadas, acusou-se o povo de ser conduzido como um desses animais. Agora, ao menos, há coerência entre o diagnóstico e o menu. A economia pode estar em frangalhos, mas a retórica nunca esteve tão bem alimentada.

Sob o governo de Javier Milei, instaurou-se uma nova pedagogia econômica: o sacrifício não é apenas abstrato, ele se mastiga. A inflação sobe, o salário encolhe, e o cidadão aprende, com resiliência, que há sempre uma alternativa. Ainda que ela relinche. Trata-se de uma dieta de austeridade em sentido literal: corta-se o supérfluo, preserva-se o essencial e reinventa-se o resto.

Os especialistas discutem se a carne de burro é nutritiva. Os argentinos, mais pragmáticos, discutem se ela é acessível. Entre um paper acadêmico e um prato quente, vence o prato. A fome, como se sabe, tem pouco interesse por teorias, prefere resultados práticos.

Há quem veja nisso um retorno às raízes. A história latino-americana é pródiga em soluções improvisadas, onde a necessidade faz do cardápio um laboratório. O problema é que, neste caso, o improviso ganhou status de política. Não se trata mais de adaptação, mas de orientação. Comer burro passa a ser evidência estatística.

Naturalmente, sempre há defensores. Argumenta-se que o mercado se ajusta, que a liberdade econômica inclui a liberdade de escolher entre cortes bovinos e alternativas mais inusitadas. Afinal, quem pode ser contra a diversidade alimentar? O consumidor, dirão, é soberano. Mesmo quando só pode escolher entre o improvável e o impossível. Continue lendo 




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