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Artigos • 06 maio, 2026

O medalhão de Machado de Assis


(Cláudio Henrique de Castro) –

Creia-me, leitor, que a advocacia é o solo mais fértil para a semente do
medalhão.
Seguem os conselhos de Machado de Assis, digo, de um pai para o filho que
cursou Direito.
Não falo do Direito que se estuda nos alfarrábios, coisa árida e, a bem dizer,
perfeitamente dispensável para quem almeja o brilho das gazetas e o respeito das
antessalas.
O advogado que se preza de ser medalhão não busca a verdade; busca o verniz.
Note-se o porte: a gravidade do busto, o olhar que flutua entre a severidade e a
complacência, como se carregasse nos ombros todo o peso de Têmis sem, contudo,
desmanchar o nó da gravata.
A eloquência, oh! a eloquência!
Deve ser um deserto de ideias originais.
Fuja da análise profunda como o diabo da cruz.
Prefira os lugares-comuns, as frases feitas, o "pacta sunt servanda" dito com o
bico dos lábios, pois a originalidade é um despropósito que gera dúvidas, e a dúvida é a
inimiga do sucesso social.
O tribunal, para o nosso causídico, não é um recinto de justiça, mas um palco de
sombras chinesas. O que importa é a ressonância da voz, o adágio latino bem colocado
(ainda que mal traduzido) e a arte de dizer muito sem proferir nada que se aproveite. Se
o constituinte é culpado ou inocente, isso é detalhe de somenos diante da oportunidade
de luzir um par de punhos de linho.
O medalhão é, antes de tudo, uma negação do espírito crítico.
No foro, ele é a estátua que caminha. Ele não pensa, ele repete; e nessa repetição
encontra a paz dos justos e a admiração dos tolos.
Veja como ele sobe! Cada "data venia" é um degrau na escada da consideração
pública.
Se porventura lhe ocorrer uma ideia própria, abafe-a!
Enterre-a no quintal da consciência. O mundo prefere o eco ao som original, pois
o eco é familiar e não exige o esforço da compreensão.
O advogado-medalhão é, portanto, o triunfo do invólucro sobre o conteúdo.
É a vitória da cartola sobre o cérebro.
No fim da lida, quando ele fechar os códigos e guardar a beca, restará a imagem
impecável de um homem que nunca perturbou a ordem das coisas com o escândalo de
um pensamento novo.
E se a posteridade não o ler, pouco importa; ele terá tido o jantar, a comenda e o
cumprimento de rua.
É o que basta.
A glória é, afinal, uma questão de publicidade, e a alma… bem, a alma é uma
metáfora que não paga as custas do processo.




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