Campo Grande, 29/05/2026 14:22

Blog do Manoel Afonso

Opinião e atitude no Mato Grosso do Sul

Artigos

Artigos • 20 abr, 2026

O Relógio Ancorado


O Brasil parece viver em um eterno compasso de espera. Os pontos facultativos e feriados prolongados são como pausas forçadas na sinfonia da vida pública: o maestro levanta a batuta, mas a orquestra silencia. O país respira, mas não avança.

Cada feriado prolongado é um duplo espelho: de um lado, o turismo floresce, hotéis se enchem, estradas se congestionam, e o consumo se aquece. De outro, a engrenagem da produção desacelera, processos param, prazos se arrastam. É como se a nação fosse um grande relógio que, ao se permitir descansar, deixa de marcar o tempo da competitividade global. O mundo não espera pelo Brasil; o mercado internacional não conhece ponto facultativo.

No campo jurídico, o impacto é ainda mais cruel. O jurisdicionado, que já vive a angústia da espera, vê o calendário se transformar em um labirinto de datas suspensas. Precatórios que não se liberam, decisões que não se publicam, sentenças que não se cumprem. É como se o tempo da Justiça fosse um rio represado: a água acumula, a pressão aumenta, mas a corrente não flui.

O operador do direito – advogado, juiz, servidor – torna-se personagem de uma peça kafkiana, onde o relógio gira em círculos e o processo nunca chega ao fim. A transparência se dissolve como neblina, e a confiança do cidadão se esfarela como papel molhado.

Imagine a Justiça como uma biblioteca infinita, à maneira do famoso escritor, poeta, crítico literário e ensaísta argentino Jorge Francisco Isiodoro Luis Borges Acevedo. Cada processo é um livro esperando ser lido, cada sentença uma página aguardando ser escrita. Mas os corredores estão trancados por feriados, os bibliotecários ausentes por pontos facultativos. O jurisdicionado vaga, perdido, entre prateleiras de promessas não cumpridas.

Ou, se preferirmos a imagem do renomado escritor, filósofo e jornalista franco-argelino Albert Camus: o jurisdicionado é Sísifo, empurrando sua pedra-processo montanha acima, apenas para vê-la rolar de volta a cada suspensão de expediente. O absurdo não está apenas na demora, mas na repetição sem fim.
Consideração derradeira

O feriado prolongado é doce para o corpo, mas amargo para a alma da República. Ele revela a contradição de um país que celebra o descanso enquanto posterga o dever. A economia perde ritmo, a Justiça perde credibilidade, e o cidadão perde esperança.

Em última análise: O Brasil é um barco ancorado em portos de feriados, enquanto o mar da história exige navegar. E cada ponto facultativo é mais um nó na corda que prende o navio, adiando a travessia para o futuro.
É meu juízo!

Rio de Janeiro, 19/04/2026
Adgerson Ribeiro de Carvalho Sousa – Advogado




Deixe seu comentário