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Artigos • 27 mar, 2026

Trump, o garoto propaganda dos aiatolás


Como a retórica agressiva e a estratégia errática dos Estados Unidos acabaram fortalecendo, dentro e fora do Irã, um regime historicamente condenado

Após tantas ameaças, bazófias, recuos e eterno bullying, Donald Trump conseguiu o impossível: fazer com que o detestável e repressivo regime dos aiatolás passasse a ser visto com condescendência — até simpatia — por aqueles que até então o condenavam e torciam contra. Efeito bumerangue. Tornou-se o marqueteiro involuntário da teocracia iraniana, dentro e fora do Irã.

A prepotência do presidente-empreiteiro, somada à ausência de objetivos minimamente claros sobre o porquê da ofensiva e à violação sistemática do Direito Internacional e de convenções sobre crimes de guerra, fez de Trump, a despeito de si mesmo, o mais eficiente garoto-propaganda dos xiitas.

No Irã, o ataque fortaleceu a linha dura e ampliou a adesão ao regime por parte da parcela hesitante da população. No resto do mundo, provocou medo e repúdio: e se acontece o mesmo conosco?, muitos se perguntam. Não basta matar: o recurso a sicários para eliminar o alto escalão iraniano — a tática atribuída a Israel e EUA de assassinar Khamenei, Larijani e dirigentes da Guarda Revolucionária e dos serviços secretos — deu com os burros n’água. Aiatolá morto, aiatolá posto.

Só o mercado, quem diria, ainda parece acreditar nas declarações voláteis e estultas de Donald, oscilando numa gangorra de sobe e desce overnight. Já o séquito interno de Trump dá sinais de rebelião, como o movimento Maga (Make America Great Again), que não quer a guerra, além de setores do próprio Pentágono.

Na quinta-feira (dia 26), Donald afirmou que o Irã vai ceder e quer negociar, apenas estaria com medo de admitir (!). O Irã nega: mostra-se mais desafiante, bombardeando diariamente — diariamente, repetimos — interesses estadunidenses, como bases militares nos países do Golfo Pérsico. Na semana passada, atingiu instalações de gás do Catar, inviabilizando 17% de sua capacidade de exportação, em resposta ao ataque israelense ao campo South Pars, no Irã. Egito, Turquia e Paquistão ensaiam uma intermediação, mas o ceticismo é geral.

O fechamento seletivo do Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% da exportação global de petróleo — acena para uma crise energética e uma recessão sem precedentes.

Qualquer previsão sobre os próximos desdobramentos desta guerra seria uma especulação imprudente. Provavelmente será longa. Mas o feitiço virou contra os feiticeiros: enquanto Israel e EUA gastam bilhões em operações bélicas, os drones simplórios e baratos do Irã continuam a chover.

Comenta-se, inclusive, a possibilidade de o regime iraniano endurecer e ampliar suas exigências para um improvável cessar-fogo: criar taxas permanentes para toda embarcação que atravesse Ormuz, renegociar o acordo nuclear em termos mais favoráveis e até cobrar indenizações dos atacantes. Os persas têm uma longa história de resiliência.

Por Marília Fiorillo – professora da Universidade de São Paulo 

Fonte – Jornal da USP




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