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Crônica

Crônica • 19 mar, 2026

Crônica sobre a dor crônica


(por Carlos Castelo) –                            

Antes de tratar da minha lombar, creio ser prudente contextualizar certos aspectos que regem a vida humana.

A gravidade, por exemplo, é um fenômeno antigo. Já estava presente antes mesmo de eu precisar apanhar algo no chão. Se Isaac Newton tivesse passado uma tarde tentando pegar uma meia caída atrás da cama, talvez tivesse desenvolvido uma teoria menos entusiasmada sobre a atração dos corpos.

Mas falemos de posturas.

A postura ereta, orgulho da evolução, é celebrada como sinal de progresso. Contudo, suspeito que nossos ancestrais quadrúpedes tinham uma vantagem estratégica: não precisavam negociar com a própria espinha antes de se inclinar. Eu, por exemplo, mantenho um diálogo diário com a minha lombar, que se manifesta com o respeito de um ministro das Relações Exteriores.

É curioso como pequenos movimentos — pegar um livro, fechar uma janela, admirar algo distante — transformam-se em feitos hercúleos. Há cálculos invisíveis, como se minha coluna exigisse um plano de voo detalhado. “Inclinação prevista de 27 graus. Risco moderado. Proceda com cautela.” E eu procedo, lentamente, como quem vai desarmando uma bomba.

É claro, isso afeta atividades banais. Tomemos o simples ato de espirrar. Um espirro, em circunstâncias normais, é um evento democrático: vem e vai. No meu caso, ele requer planejamento estratégico. Se sinto a aproximação de um, preciso imediatamente avaliar minha posição e buscar apoio lombar.

Mas estou me adiantando.

Ainda não mencionei a lombar em si, apenas as consequências de sua existência. A lombar é uma região modesta do corpo, discretamente posicionada, que decidiu assumir protagonismo sem aviso prévio. Não dói de maneira dramática; prefere uma crítica sutil, um lembrete de que a verticalidade é um privilégio, não um direito adquirido.

Outro dia considerei reorganizar minha estante de livros. Não por necessidade urgente, mas por impulso literário. Coloquei-me diante dela, avaliei a altura das prateleiras, calculei a distância do chão, e minha lombar, com a serenidade de quem já viu muitos heróis tombarem, sugeriu contemplação em vez de ação. Entre a Cultura e ter que fazer infiltração, preferi mil vezes ouvir minha coluna.

Há também o ritual matinal de calçar os sapatos. Alguns defendem a ideia de sentar-se para isso. Outros recomendam apoiar o pé numa superfície elevada. Eu defendo a teoria da espera. Os sapatos devem se aproximar de mim e não eu deles. Caso não o faça, sempre há sandálias.

E assim transcorrem meus dias, num equilíbrio delicado entre intenção e negociação vertebral. Não sou avesso ao movimento; apenas acredito que cada gesto deve ser considerado, talvez precedido por uma pausa reflexiva.

Se isso resulta em tarefas adiadas, trata-se de efeito colateral da prudência física. Afinal, a espinha sustenta o corpo. E convém não contrariar algo que está literalmente segurando tudo.

(Publicado no Estadão)




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