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Crônicas

Crônicas • 20 maio, 2026

Habemos Ney


(por Carlos Castelo) –

No Brasil, existe uma superstição antiga segundo a qual o técnico da Seleção Brasileira escolhe os jogadores. É uma crença simpática, como Papai Noel, meritocracia ou fila organizada em caixa preferencial. Na prática, a Seleção é escalada pela mesma entidade que decide o horário da novela e a duração do Carnaval: a Rede Globo.

Carlo Ancelotti, pobre italiano de sobrancelhas aristocráticas, desembarcou no Tom Jobim com aquela expressão típica dos europeus que acreditam ter sido contratados para um cargo real. Achava que treinaria futebol. Ingênuo. Em menos de quarenta e oito horas já havia compreendido que seu trabalho consistia apenas em balançar a cabeça enquanto algum vice-diretor de conteúdo decidia se o ponta-esquerda precisava ter boa conexão emocional com o público do Sudeste.

Consta que a primeira reunião técnica ocorreu numa sala sem janelas, onde lhe apresentaram um PowerPoint chamado “Brasil 2026: Jornada de Engajamento”. Havia gráficos, mapas de audiência e uma simulação em 3D mostrando quantos pontos no Ibope um drible do Neymar poderia render entre o Jornal Nacional e a novela das nove.

— Ma o Neimá tá strupiatto! — teria arriscado o italiano.

Alguém então explicou ao estrangeiro que, no Brasil, o joelho de Neymar é apenas um detalhe clínico; sua presença na Seleção é um ativo institucional, como a bandeira nacional. Se o rapaz estiver sem condições de jogar, joga em flashback. O importante é aparecer sorrindo no teaser de domingo.

A influência da Globo no país já atingiu níveis litúrgicos. Presidentes da República passam a existir apenas depois de participar do “Fantástico”. Ministros do Supremo esperam ansiosamente pela aprovação tácita de uma comentarista político. E há deputados que mudam de ideologia conforme a escalada do “Jornal da Globo”.

No Brasil profundo então, muita gente não acredita em Apocalipse. Acredita em plantão da Globo.

Ancelotti descobriu tudo isso aos poucos. Primeiro estranhou que a lista de convocados viesse acompanhada de orientações sobre corte de cabelo e potencial para merchandising de shampoo e pasta de dente. Depois percebeu que os amistosos eram marcados pela compatibilidade com a grade da novela das sete. Um clássico contra a Argentina às quatro da tarde? Impossível. Derrubaria a audiência da reprise de “Escrava Isaura”.

No fim da semana, Carletto já estava domesticado. Sentava-se em silêncio, bebia cafezinho, tragava seu vape, e concordava com tudo. Quando sugeriu convocar um volante brasileiro que atuava brilhantemente na Itália, ouviu a pergunta fatal:

— Mas ele tem carisma para o “Domingão”?

Ali compreendeu o destino irrevogável do futebol brasileiro: não vence quem joga melhor. Vence quem cabe melhor no intervalo comercial.

(Publicado no Crônicas da Copa)




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