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Artigos • 26 set, 2023

As democracias favorecem a paz, mas por influência feminina, não masculina


(por João Pereira Coutinho, na FSP)

Foram as mulheres, cansadas de limparem a sujeira quando as armas se calavam, que reduziram a quantidade de guerras

Seja sincero: você, leitor, homem, macho, quantas vezes por dia, ou por semana, ou por mês, pensa no Império Romano? É a pergunta do momento, varrendo as redes sociais.

Tudo começou como brincadeira de uma influenciadora sueca, o que quer que isso seja —influenciadora não ser sueca—, que exortou suas seguidoras a fazerem a pergunta a seus maridos, namorados, pais, irmãos.

As respostas são aterradoras, ou inspiradoras, consoante a perspetiva: os homens pensam muito no Império Romano. Alguns, várias vezes por semana. Por que?

Para quem acredita que o gênero é mera construção social, estamos conversados: você mostra o acrônimo “SPQR” (“Senatus Populusque Romanus”, “o Senado e o Povo Romano”, de preferência com uma águia em cima) e o homem saliva de imediato, pronto para a batalha.
Eu próprio, de vez em quando, também viajo para lá. Embora, no meu caso, prefira a República ao Império: sou mais Cícero que Suetônio. Sintomas da meia-idade?

Não duvido da obsessão masculina pelos romanos. Não duvido das razões para isso. E depois, nas minhas leituras profissionais, encontro essa frase: “Desde a era romana que não se passavam setenta e cinco anos [de 1945 a 2020] sem que houvesse guerra entre as maiores potências do mundo.”

A frase pertence a Robert Trager e Joslyn Barnhardt no seu “The Suffragist Peace: How Women Shape the Politics of War” (a paz sufragista: como as mulheres influenciam a política da guerra). É verdadeira: estamos mais pacíficos que nunca.

Há várias razões para isso. Mas uma delas, defendida pelos autores, é feminina: quando você concede a metade da população o direito de voto, há mudanças em política. Importantes e mensuráveis.

Mudanças internas, para início de conversa: quando as mulheres começaram a votar, a despesa dos estados aumentou. O mesmo aconteceu com os machos. A grande diferença está na natureza da despesa: com elas, mais dinheiro para saúde e educação; com eles, mais dinheiro para infraestruturas e defesa.

Pelos vistos, as democracias tornam os estados mais pacíficos, mas não por influência masculina. Aliás, é exatamente o contrário: uma das conclusões mais perturbantes do livro é que as democracias masculinas não realizaram o sonho pacifista de teóricos como Thomas Paine ou Kant.

Diziam eles, com aquele otimismo iluminista que também produziu a guilhotina, que o mundo ficaria mais pacífico quando os homens, todos os homens, pudessem escolher os seus governantes.

No fim das contas, eram os homens, sobretudo os mais pobres, que marchavam para as guerras caprichosas de reis e rainhas.

Seriam eles a exigir governos mais diplomáticos.

Azar. Os teóricos subestimavam o entusiasmo deles pela carnificina. Foi esse entusiasmo que deixou pasmos vários governantes ao longo do século 19 e até às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Sempre que um novo conflito aparecia no horizonte, havia euforia entre os machos.

a sombra dessa euforia, estavam as mães, as mulheres, as filhas. As cuidadoras dos estropiados. As indigentes. As viúvas. As órfãs.

Não admira que as primeiras sufragistas, ao lutarem pelo direito de voto no século 19, tenham elegido a guerra e as suas consequências como um dos principais argumentos para terem uma palavra sobre os assuntos políticos. E, pelos vistos, tiveram, para melhor.

Não vem mal ao mundo se os homens pensam frequentemente no Império Romano. Se o estudarem, na sua grandeza e miséria, é até de louvar. Como perguntava o Monty Python, o que é que os romanos alguma vez fizeram por nós, além de nos terem dado os aquedutos, a lei, a irrigação, o saneamento, o vinho, as estradas, a ordem pública e tudo o resto?

Mas não foram os romanos, nem os seus admiradores, que introduziram na equação da política de massas a urgência da paz. Foram elas, cansadas de limparem a sujeira quando as armas se calavam.




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