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Artigos • 25 jul, 2025

Democracia? Não, obrigado.


(por Carlos Castelo)  – 

A democracia não morrerá com tiros, mas com aplausos. Não haverá tanques nas ruas nem censura oficial; teremos stories, correntes no WhatsApp e editoriais com cheiro de naftalina. O povo, cansado da liberdade e das suas consequências imprevisíveis, como pobres votando, mulheres opinando e artistas criticando, resolverá optar pela paz: a paz dos cemitérios.

Isso porque o novo herói nacional usa terno barato, cospe frases prontas e é tratado como messias por pessoas que se informam por vídeos de dois minutos com trilha épica. Promete restaurar a ordem, limpar o país e acabar com os privilégios: sem excluir, é claro, os próprios. É o típico produto de um povo que ama a emancipação da mesma forma que ama brócolis: apenas quando o médico manda.
Na varanda gourmet, o cidadão de bem assiste ao noticiário com a cerveja na mão e a alma higienizada por frases como “bandido bom é bandido morto” e “direitos humanos só atrapalham”. Ele se diz farto de tanta baderna, mas nunca enfrentou uma fila do SUS.
Seu conceito de civilização começa na cancela do prédio e termina no som tranquilizador da sirene da viatura da PM. Desde que ela esteja parada na casa do vizinho.

A democracia, por seu lado, ainda tenta falar. Mas é sempre interrompida por algoritmos e apresentadores com dentes demais. A população, hipnotizada pelo brilho da segurança prometida, entrega a Carta Magna em troca de aplicativos com botão de pânico e um BOPE sorridente na hora de tirar selfie.

Enquanto isso, a mídia segue noticiando a queda das instituições como se estivessem falando da previsão do tempo. Hoje é o Supremo sob ataque. Amanhã, uma possível censura light com rajadas de exceção constitucional. E assim caminhamos, alegres, crentes de que o problema sempre foi o professor comunista, nunca a própria ignorância embalada em patriotismo.

No fim, quando o último vereador for substituído por um pastor armado, e o derradeiro artista por um influenciador fitness, alguém ainda proferirá: “Mas pelo menos agora o país está limpo”. Sim, limpo de ideias, de gente que pensa alto demais, ou de quem atua fora das quatro linhas do zap.

E aí será tarde demais.

Aquele mesmo cidadão de bem, com a barriga cheia de slogans, se sentará para sua última refeição: um banquete de obediência, servido em prato de fake news e temperado com nostalgia de uma grandeza que nunca existiu. Ele mastigará em silêncio, com o garfo numa mão e a Constituição rasgada na outra. Ao final, virá a sobremesa. E ele dirá:

–  Democracia? Não, obrigado. Engorda.

(Publicado no Estadão)




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