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Artigos • 22 jun, 2025

É chocante, mas eu uso canetas-tinteiro e máquinas de escrever


(por Ricardo Araújo Pereira, na FSP) –

Todos me fazem sentir como uma pessoa do século 19 que, por alguma razão, se intrometeu no mundo moderno

Conto com a compreensão e a tolerância de todos para a confissão que faço a seguir: eu coleciono e uso diariamente canetas-tinteiro e máquinas de escrever. Sei que é chocante, até porque todos aqueles que me rodeiam me fazem sentir como uma pessoa do século 19 que, por uma razão que ninguém sabe explicar, mas todo mundo lamenta, se intrometeu no mundo moderno.

É uma vida dura a minha. Sempre que abro o YouTube, o algoritmo oferece vídeos que, como ele bem sabe, me interessam. São vídeos longos de senhores que têm a mesma obsessão que eu, e se dedicam a mostrar as suas canetas-tinteiro, a medi-las, a pesá-las, a registrar quantas voltas é preciso dar na tampa para destapar a caneta —uma volta e três quartos, no caso da linda Pilot Custom Urushi Vermillion.

É evidente que nenhum desses senhores terá alguma vez visto uma mulher nua. E eu agradeço o seu sacrifício e a sua loucura, que eu partilho —talvez em um grau ligeiramente menor.

Às vezes, pessoas como eu têm pequenas vitórias. Há uns meses, um apagão fez com que Portugal e a Espanha ficassem sem eletricidade entre as 11h e as 20h. À minha volta havia desespero. Mas eu peguei numa das minhas máquinas de escrever —uma Olivetti Lexikon 80, igual àquela em que Gabriel García Márquez escreveu “Cem Anos de Solidão”— e escrevi os textos que precisava entregar nesse dia.

Embora fossem de qualidade ligeiramente inferior a “Cem Anos de Solidão”, a verdade é que consegui escrevê-los igualmente.

Máquinas de escrever são objetos maravilhosos, cujo som basta para seduzir o utilizador — um som que fez com que as principais metáforas associadas às máquinas de escrever fossem um piano de jazz e uma metralhadora. É, de fato, um objeto híbrido, bélico e resistente como a metralhadora, livre e rebelde como o piano de jazz.

E há mais. Na primeira vez que trouxe uma máquina de escrever para casa, as minhas filhas, duas pessoas nascidas já neste século, habituadas a computadores e a smartphones, espantaram-se: ah! Imprime logo! Sim. É instantâneo.

E, no entanto, canetas-tinteiro e máquinas de escrever resistem à rapidez moderna. São símbolos de uma certa lentidão injustamente desprezada. Devagar é, de fato, melhor. Quem tem pressa come cru.




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