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Artigos • 27 abr, 2026

Entre servidão e cidadania


No Brasil, o 27 de abril é mais do que uma data simbólica: é um espelho. Ele reflete o rosto de algo em torno de 5,6 a 5,9 milhões de pessoas ocupadas no trabalho doméstico, em sua maioria mulheres negras, que sustentam o cotidiano das casas brasileiras, segundo dados recentes do DIEESE e pesquisas baseadas no IBGE (PNAD). Mas esse espelho também revela rachaduras: apenas 25% delas têm carteira assinada. Em 2013, quando a PEC das Domésticas foi aprovada, esse número era de 33%. Mais de dez anos depois, a formalização não avançou – retrocedeu. Uma em cada três domésticas trabalha formalmente; as demais permanecem na sombra da informalidade, como se o país ainda não tivesse aprendido a enxergar o valor do trabalho que o mantém de pé.

Na Europa e nos Estados Unidos, o trabalho doméstico se organiza em moldes diferentes. Lá, há maior institucionalização: agências, contratos, regulamentações que, ainda que imperfeitas, conferem ao serviço doméstico uma aura de profissão. Aqui, o peso da herança escravocrata ainda se faz sentir. A empregada doméstica foi por muito tempo tratada como “da família” – uma ficção afetiva que escondia desigualdade e ausência de direitos.

A PEC das Domésticas foi um marco civilizatório. Ela disse, com a força da lei: “Este trabalho é trabalho”. Jornada definida, FGTS, férias, descanso semanal. Mas a realidade mostra que a lei não basta. A pandemia agravou a informalidade: quase 1,6 milhão de postos foram perdidos, e a classe média trocou a empregada de carteira assinada pela diarista informal.

O que falta, então? Falta cultura. Falta consciência. Falta abandonar a lógica da servidão e abraçar a lógica da cidadania. Falta compreender que o trabalho doméstico não é favor, não é extensão da maternidade, não é caridade. É profissão. É dignidade. É tempo e corpo oferecidos em troca de salário justo.

Metaforicamente, a empregada doméstica é o alicerce da casa: invisível, enterrada, mas indispensável. Sem ela, o edifício da vida cotidiana desmorona. E, no entanto, quantas vezes olhamos para o alicerce? Quantas vezes agradecemos sua firmeza?

Na Europa, fala-se em care work. Nos Estados Unidos, em housekeeping. No Brasil, ainda se diz faxineira/diarista, moça/menina da casa, “a moça que ajuda”. Essa linguagem revela atraso. O futuro exige outra gramática: a gramática da igualdade.

Celebrar o 27 de abril é convocar o país a olhar para dentro de suas casas e enxergar nelas não apenas paredes e móveis, mas também histórias de mulheres que sustentam o cotidiano com mãos invisíveis. É um chamado para que o Brasil se reconcilie com sua própria história e transforme o peso da herança em leveza de futuro.

Porque, no fim, o lar é metáfora da nação. E uma nação que não reconhece quem cuida de suas casas jamais será capaz de cuidar de si mesma.

Rio de Janeiro, 27/04/2026
Adgerson Ribeiro de Carvalho Sousa




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