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Artigos • 25 jul, 2025

Morticínio em Gaza precisa ser interrompido


(Editorial da Folha de S.Paulo) –

Israel tem cometido crimes de guerra em larga escala, com violação de direitos humanos e limitação do acesso a alimentos

Israel comete genocídio na Faixa de Gaza ou afirmar isso é apenas uma manifestação de antissemitismo?

Sobre o primeiro ponto, trava-se um intenso debate acadêmico que já vai vazando para as páginas de jornais no mundo todo. Os dois lados têm seus argumentos.

Para caracterizar penalmente um crime como genocídio, é necessário demonstrar que quem o perpetra tinha a intenção de “destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico racial ou religioso”. E nunca é fácil provar um dolo assim tão específico, daí a baixa resolutividade das discussões.

É interessante notar que é crescente, embora ainda pequeno, o número de pesquisadores do Holocausto judeus que se inclina a classificar as ações de Israel em Gaza como genocidas. Um bom exemplo é o de Omer Bartov (Universidade Brown), que escreveu um artigo para o The New York Times com grande repercussão.

Há também políticos israelenses como o ex-premiê conservador Ehud Olmert. Ele evitou a palavra genocídio, mas falou em limpeza étnica e em transformar cidades em campos de concentração, o que fica apenas um pequeno degrau abaixo.

No que diz respeito ao antissemitismo, cumpre observar que o fenômeno é real. E uma das formas pelas quais ele se materializa é em cobrar de Israel comportamentos que não se exigem de outras nações. Algumas campanhas militares dos Estados Unidos no Vietnã, no Afeganistão e no Iraque produziram altas taxas de civis mortos, mas foram raras as vozes que falaram em um suposto genocídio.

É óbvio, por outro lado, que a existência de antissemitismo não pode servir de pretexto para blindar Israel de críticas procedentes, que são muitas.

Ambas as discussões possuem valor intelectual intrínseco, mas elas podem paradoxalmente desviar a atenção do que realmente importa: está ocorrendo um morticínio em Gaza que precisa ser interrompido.

Se o genocídio é um delito difícil de provar, crimes de guerra e contra a humanidade, que independem de dolo específico, são consideravelmente mais simples, e Israel os tem cometido em larga escala, com violação generalizada de direitos humanos, destruição de infraestrutura civil, deslocamentos forçados, limitação do acesso da população a alimentos e medicamentos essenciais.

Mesmo considerando que o atual ciclo de violência foi desencadeado pelos ataques terroristas do Hamas, que ainda fez reféns, não se pode aceitar que um Estado em pleno século 21 utilize a fome como arma de guerra.

Fazê-lo não apenas viola leis internacionais e preceitos morais básicos como também vai contra os interesses de longo prazo de Israel. Só haverá paz sustentável no Oriente Médio com a criação de um Estado palestino.

O governo israelense deveria buscar parceiros para negociar, mas parece mais empenhado em sabotar definitivamente qualquer chance de entendimento.

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