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Artigos • 09 jul, 2024

Não é a gola, Endrick, é a bola


(por Joaquim Ferreira dos Santos, em O Globo ) –

O jogador brasileiro já teve todos os motivos e mais cinco Copas do Mundo para se achar o Deus dos estádios. Hoje, e a grosseria do jogo contra o Uruguai confirma isso, ele é um fornecedor de conteúdo para memes que fazem o mundo gargalhar

Abaixa essa gola, Endrick, que você não está com essa bola toda, meu caro. A gola levantada foi criada como sinônimo de marra por James Dean em algum filme dos anos 50. Era um símbolo afirmativo, de rebeldia jovem, de se declarar fora da caretice dos uniformes dos homens mais velhos. Caía-lhe bem na empáfia então moderna de botar os cornos e a gola acima da manada, uma maneira estilosa de dizer ao establishment que estava contra o padrão – mas uma gola levantada não atua sozinha no cinema, muito menos constrói boas jogadas no futebol.

Nas telas, com técnica charmosa, James Dean inventou uma marca universal de juventude com causa. No futebol, prezado Endrick, o busílis não é a gola alta, é a bola redonda.

Eu tenho meus ídolos na literatura, no jornalismo. Quando o assunto é futebol, deixo de lado a sabedoria de todos eles e me conecto em linha direta com o pensamento cru do filósofo Romário. Hoje ele é um senador lamentável, mas nos raciocínios ao redor do jogo de bola foi um sábio. Diante de um inimigo que queria charlar mais onda do que ele, Romário perpetrou o aforismo do “Mal chegou no ônibus e o cara já quer sentar na janela”.

A estrada é longa, Endrick. Por enquanto, como o jogo contra o Uruguai demonstrou, você está na classe dos que pagam meia passagem. Senta lá no fundo do ônibus. Observe o Bellingham, o Saka, jovens jogadores de origem tão humilde quanto a sua. Tente entender o código de sobrevivência dessa viagem, “Fale ao motorista somente o indispensável”, “Dê um passinho à frente”, e você chegará feliz ao fim dela. Quem sabe uma Copa América para mostrar aos netos?

O jogador brasileiro já teve todos os motivos e mais cinco Copas do Mundo para se achar o Deus dos estádios, o marrento com as devidas permissões para se exibir como tal. O drible da vaca, o do elástico, a folha seca. Tudo coisa nossa.

Hoje, e a grosseria do jogo contra o Uruguai confirma isso, ele é um fornecedor de conteúdo para memes que fazem o mundo gargalhar, um Neymar rolando por todos os continentes, um Éder Militão que caminha para a cobrança do pênalti no jogo contra o Uruguai. Ele vai brincando com a bola, debochando da gravidade do momento, sem o “medo do batedor diante do goleiro”, enfim, todo catito como se fosse ali na esquina tomar um sorvete – e eis que o presepeiro, revelando-se um perna de pau qualquer, chuta a bola nas mãos do uruguaio.

O jogador brasileiro anda chatíssimo. Violento, peita o juiz para discutir qualquer marcação e, sem recursos técnicos, toca a bola para o lado, na esperança de que algum companheiro habilidoso apareça para resolver o problema em que sempre fomos mestres divertidos – o que fazer com a bola.

Você, meu caro Endrick, parecia a solução para esse inferno de morrer nas quartas de final – mas, pelo que não jogou contra o Uruguai, ainda não será desta vez. Baixa a gola, se é que você me entende a metáfora, e foca na bola. Homenageie com ela o James Brown que lhe vai nos cabelos. Inspire-se no autor de “Sex Machine”. Vire um “Football Machine”, e faça o Brasil feliz de novo




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