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Artigos • 27 jan, 2024

Nossas palavras estão em desordem


Marília Fiorillo lamenta que 2023 tenha sido um ano de muito conflito e pouco diálogo, abrindo espaço para o desencanto e o pessimismo… e também para um poema de Bertolt Brecht

 

O ano de 2023 teve tantos exasperantes conflitos e tão pouco diálogo que o desencanto e o pessimismo se apossaram de muitos de nós. Antigos alinhamentos e dogmas caíram no ridículo, a lei do mais feroz prevaleceu e nesse vácuo de perspectivas tentamos inventar e acomodar um novo modo de pensar, engatinhando novas maneiras de reagir e agir.

Vamos deixar o poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht responder a estes tempos de desorientação sombria, nos versos de Aos que Hesitam: Você diz: nossa causa vai mal. A escuridão aumenta. As forças diminuem. Agora, depois que trabalhamos por tanto tempo/Estamos em situação pior que no início. O inimigo está aí, mais forte do que nunca./Sua força parece ter crescido. Ficou com aparência de invencível./ Mas nós cometemos erros, não há como negar. Nosso número se reduz. Nossas palavras de ordem estão em desordem/ O inimigo distorceu muitas de nossas palavras até ficarem irreconhecíveis. Daquilo que dissemos, o que é agora  falso: tudo ou alguma coisa? Com quem contamos ainda? Somos o que restou, lançados fora da corrente viva?/ Ficaremos para trás/por ninguém compreendidos e a ninguém compreendendo? Precisamos ter sorte? Isso você pergunta. Não espere nenhuma resposta senão a sua”.

Como sugere este poema de Brecht, que 2024 nos traga esta resposta ainda incipiente, pavimentando o caminho da paz, a extinção da obscena desigualdade, a regeneração do planeta. Fantasia? Não, apenas a modesta devolução, à humanidade, do que nunca foi demasiadamente humano.

Por Marília Fiorillo – Fonte – Jornal da USP




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