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Opinião e atitude no Mato Grosso do Sul

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Artigos • 04 abr, 2026

Recessão Pascal


(por Carlos Castelo) – 

Dizem que o mundo é interligado. Nunca acreditei muito nisso até a semana passada, quando fui informado, com a devida gravidade de um boletim econômico, que a produção de ovos de Páscoa estava em queda livre por causa de tensões no Oriente Médio. Não sei exatamente quando passamos a depender de coelhos industrializados, mas já era tarde demais para questionar.

O fato é que, segundo minhas fontes, o aumento do preço do petróleo afetou em cheio as fábricas de ovos. E não apenas no sentido metafórico. Literalmente. O petróleo subiu, o cacau encareceu, o transporte ficou impraticável e, por alguma razão, os coelhos entraram em greve.

Visitei uma dessas fábricas e encontrei um cenário digno de filme: operários de orelhas caídas, máquinas lentas e um silêncio constrangedor, interrompido apenas pelo barulho de um ovo rolando desmotivado pela esteira.
— Não dá mais — disse o coelho gerente, ajustando sua gravatinha com um ar derrotado.

— O diesel sobe, o açúcar infla, o plástico das embalagens explode. Só o ânimo do coelho é que desce.
No setor de pintura, a coelha Agostinha estava encarregada de decorar os produtos que, segundo ela, estavam cada vez mais minimalistas.

— Antes, a gente fazia florzinha, listrinha, bolinha. Agora é um ovo bege e olhe lá. Estamos chamando de “ovo chic simple” para ver se vende.
Já Pascoal, do setor de qualidade, explicou que o problema era psicológico.
— A gente sente o clima geopolítico. Percebemos a tensão no mercado internacional e travamos. Nós coelhos somos animais muito sensíveis.

Enquanto isso, no fundo da fábrica, uma placa anunciava: “Meta do dia: produzir pelo menos alguma coisa”. A meta, segundo me informaram, vinha sendo sistematicamente ignorada.
O mais preocupante é o efeito cascata. Sem ovos, não há Páscoa. Sem Páscoa, o brasileiro médio fica sem desculpa para comer chocolate em quantidades industriais, o que pode levar a um colapso generalizado. Economistas especializados em lebres já falam em recessão.

Há, contudo, propostas para resolver o problema. Uma delas sugere substituir os ovos por “experiências pascais digitais”, o que ninguém entendeu, mas todos concordaram em odiar. Outra propõe comercializar ovos de galinha e pintar manualmente, o que foi considerado humilhante pelos coelhinhos.

No fim, saí da fábrica com a sensação de que o mundo realmente está interligado. Só não da maneira que esperávamos. Afinal, quem poderia imaginar que um conflito internacional acabaria afetando tanto esses animais?
Com pena, comprei um ovo na lojinha da fábrica. Pequeno, caro e sem graça. Minimalista, como disse Agostinha. Porém, pelo menos veio com uma mensagem num cartãozinho: “Produto compatível com a realidade atual.”




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