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Artigos • 21 mar, 2026

Saudade do “O quinto dos infernos”


SOB O PESO DE TAXAS, CORRUPÇÃO E UM FUTURO QUE INSISTE EM NÃO CHEGAR.

Você já mandou alguém para “o quinto dos infernos”? Aposto que sim — ou pelo menos já ouviu alguém fazê-lo. Mas você sabe de onde veio essa expressão tão típica do nosso vocabulário?

Houve um tempo em que 20% de imposto era considerado uma maldição divina. No Brasil Colônia, a Coroa Portuguesa exigia um quinto de todo o ouro extraído, e a revolta era tamanha que o povo batizou o destino desse dinheiro de “o quinto dos infernos”.

Quem diria que, em 2026, olharíamos para trás com saudade da exploração colonial? Hoje, o brasileiro entrega quase 50% de sua vida, de seu suor e de seu tempo para sustentar uma máquina que parece projetada para moer esperanças.

O Barril da discórdia

Enquanto o Oriente Médio arde em conflitos e o Irã se torna o epicentro de uma tensão global, o petróleo Brent rompe a barreira dos US$ 119,50. O reflexo disso não é apenas um gráfico na televisão; é um soco no estômago de quem tenta encher o tanque. O fechamento do Estreito de Ormuz estrangula o mundo, e o Brasil assiste ao dólar disparar, encarecendo cada grão de feijão que viaja por nossas estradas.

A matemática é cruel: cada 10% de alta no petróleo injeta inflação nas veias da economia. Estamos caminhando para a estagflação — o pior dos mundos, onde os preços não param de subir, mas a economia insiste em não caminhar.

Comprando impostos

O diesel, o sangue que move o Brasil, acumulou altas de 20%, chegando ao patamar revoltante de R$ 7,35 por litro. A gasolina não fica atrás, beirando os R$ 6,65. O governo tenta “estancar a sangria” com isenções temporárias de PIS/Cofins, mas a verdade é que o modelo ad rem e o ICMS fixo (R$ 1,57 na gasolina e R$ 1,17 no diesel) criam uma barreira intransponível para o alívio real.

Para tentar conter o caos, o governo cria “pacotes antiturbulência”, taxando exportações e injetando subvenções. Na prática? É o cachorro correndo atrás do próprio rabo, enquanto o consumidor final vê sua renda ser confiscada na bomba do posto.

O assalto com data marcada

Se nas estradas o custo é alto, dentro de casa o cenário é de desespero. Em Campo Grande, o IPTU 2026 tornou-se um símbolo de opressão fiscal. Reclassificações obscuras e cortes de descontos fizeram com que o imposto se tornasse um dos mais caros do país. Relatos de aumentos exorbitantes levaram a OAB e o Ministério Público às cortes, mas a sensação de impotência permanece.

Somado a isso, o calendário do IPVA e do Licenciamento (baseado na UFERMS) não dá trégua. E, se você decidir produzir, o Fundersul estará lá para morder uma fatia da sua soja, do seu gado ou do seu minério. Não há para onde fugir. Até o ar parece tributado.

O câncer da corrupção

O que torna a carga tributária de 40% verdadeiramente insuportável não é apenas o valor, mas a impunidade. O Brasil amarga a sua pior colocação no Índice de Percepção da Corrupção (107ª posição entre 182 países). Com pífios 35 pontos, estamos abaixo da média global e das Américas.

“A corrupção superou a criminalidade como o maior problema do país.”

Enquanto pagamos o IPVA em dia, o dinheiro que deveria ir para a saúde e educação escorre pelo ralo de emendas parlamentares opacas e orçamentos secretos. A macrocorrupção e a infiltração do crime organizado na máquina pública criaram um sistema onde o honesto é punido e o corrupto é beneficiado por decisões que enfraquecem o combate aos desvios. Estimativas apontam que dezenas de bilhões de reais desaparecem anualmente. É o dinheiro do seu almoço financiando o luxo de quem deveria te proteger.

Sem esperança

O povo não aguenta mais. A sensação é de que vivemos em um “eterno retorno” de crises. O “quinto dos infernos” agora é o dobro. Pagamos impostos de primeiro mundo para receber serviços de terceiro.

O fechamento de 2026 desenha um cenário de desaceleração do PIB e perda de poder de compra. A pergunta que fica no ar, carregada de revolta e tristeza, é: até quando o brasileiro aceitará carregar o peso de um Estado elefantiásico, ineficiente e, muitas vezes, desonesto, enquanto sua própria mesa fica cada dia mais vazia?

A frase

“Amanhã, dia de sorrir ou de chorar, de comemorar, ou somente esperançar o que estava por vir e acabou se indo…” — Davi Lambertine

Por Antonio Ueno – Cientista Político




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