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Artigos • 31 ago, 2025

Veríssimo, superlativo até no nome


por Carlos Castelo –

O que um cronista faz quando recebe a notícia de que Luis Fernando Verissimo não está mais entre nós? Escreve uma crônica, é claro. E é o que estou fazendo agora.

Perdemos o sujeito que passou a vida provando que inteligência não precisa andar de gravata. O homem que escrevia como quem assobia: sem esforço aparente, mas deixando todo mundo tentando imitar o tom. Sem jamais conseguir. Era o único capaz de transformar o PF do almoço em filosofia e a novela da noite em ciência política. E ainda fazer isso parecer conversa de botequim. Agora ele se foi. Mais uma vez, estamos condenados à nossa falta de graça.

Há quem diga que a pena de LFV era leve, quase invisível. Discordo. Imperceptível era só a engenhosidade que ele fazia parecer simples. Por trás de cada frase havia uma astúcia maliciosa, um cálculo tão bem escondido que até o leitor mais desconfiado terminava rindo. Sem perceber que acabara de ser elegantemente caçoado. Verissimo montava armadilhas com palavras: nós caíamos nelas, felizes, agradecidos, e ainda pedíamos mais.

Verissimo foi o estelionatário mais simpático da literatura brasileira. Roubava-nos a atenção, minuto a minuto, e ainda nos deixava exultantes pelo assalto. Pegava nossas neuroses domésticas, embrulhava em três parágrafos e devolvia como se fossem joias de família. Até a melancolia, essa velha chata que gosta de se vestir de preto, ele conseguia persuadir a usar nariz de palhaço.

Tão acostumada a levar gente talentosa, a morte desta vez pegou pesado demais. Tomou para si um cronista que tinha o dom de mostrar que a vida é uma sucessão de piadas ruins: mas que, vistas pelo ângulo certo, viram obras-primas. Pior: ela nos tirou a possibilidade de perguntar, amanhã cedo, qual seria a nova crônica. Restou um silêncio indecente, como um bar sem garçom ou um time sem goleiro.

Mas talvez devêssemos seguir a lição que ele nunca cansou de dar: rir. Inclusive do absurdo desta situação, da nossa lamentação dramática, do exagero em chamá-lo de imortal agora que ele justamente morreu. Porque, no fundo, Verissimo sabia que só há uma vingança possível contra a finitude: continuar fazendo piada, até da própria morte.
Portanto, brindemos a LFV. Não com lágrimas, que estragam o chope, mas com gargalhadas. Sim, apesar dos pesares, o momento não pede desolação.

Pense que no céu, com todos aqueles anjos burocratas e sisudos, não existia humor. E agora existe Verissimo.

(Publicado no Estadão)




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