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Crônica

Crônica • 10 jul, 2025

Esbordeios no Bixiga


por Carlos Castelo –

O idioma português é uma criatura viva, mutante, caprichosa, que um dia nos dá “inconstitucionalissimamente” e no outro, “esbordeio”.

Sim, hoje vamos conversar sobre essa pérola linguística que, debochada, aparece na letra da música Tragédia Afrodisíaca, do grupo de humor Língua de Trapo.

Os versos que nos convocam a essa investigação etimológica são:

“Fui dar uns esbordeios no Bixiga / Ver se alguma rapariga / Se dispunha a um tête-à-tête.”
Pois bem, caro leitor: o verdadeiro enigma linguístico ali era o tal do esbordeio. Desde que a canção foi lançada nos anos 1980 pipocaram perguntas: “Mas o que vem a ser esbordeio? É francês? É um tipo de sobremesa?

Não, e, infelizmente, também não. Esbordeio é, na verdade, uma variação do verbo esbordar. E o que é esbordar, você me pergunta com seu olhar repleto de sede por conhecimento? Essa palavra é sinônimo de transbordar, de extravasar, ultrapassar os limites. Sobretudo os do decoro, da sobriedade e da compostura, ainda mais se você está numa noite regada a samba, cerveja e libidinosidade no bairro do Bixiga, em São Paulo.

Assim, dar uns esbordeios seria, numa tradução livre e tropical, algo como sair para a gandaia, encher a cara com responsabilidade nula. Uma espécie de carnaval pessoal e intransferível.
Mas eis o detalhe que muita gente não sabe: a palavra não é dicionarizada em sua forma “esbordeio”, e aí reside a beleza do gesto poético. Um toque de Guimarães Rosa encontrando o boteco do Bilu. Um vocábulo que não tem pátria formal, mas que todo brasileiro de coração farrista entende na alma e no fígado.

Muitos acreditaram, e com certa razão, que o autor da letra havia criado a palavra como um neologismo, uma espécie de homenagem a James Joyce. E quem pode culpá-lo? Afinal, se Joyce inventava termos para descrever Dublin, por que eu não posso inventar palavras para descrever uma sexta-feira no Bixiga?

Contudo, a origem não é tão cerebral assim: o termo existia na oralidade popular, talvez enterrado nas sarjetas da fala coloquial, esperando apenas um letrista de espírito jocoso para trazê-lo à luz do palco.
Portanto, se você quiser esbordear, esbordeie com orgulho. Vá ao Bixiga, à Lapa, à Augusta. O verbo é seu, o limite é seu, e a ressaca, essa é do tamanho da sua ousadia.

(Publicado no Estadão)




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