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Política • 09 jul, 2025

Os Estados Unidos viraram um reality show de como nasce uma autocracia


(Por Wilson Gomes, na FSP) –

Essa forma de desmonte ocorre por dentro do sistema, usando métodos legais e a fachada de legitimidade eleitoral

Se Levitsky e Ziblatt ajudaram a popularizar a ideia de que democracias morrem devagar, em seu livro “Como as Democracias Morrem”, a pesquisa mais recente aprofundou os mecanismos desse processo: repressão seletiva, captura institucional e legitimação permanente. E é cada vez mais claro que o trumpismo não foi um acidente, mas um laboratório global do que vem sendo chamado de erosão democrática ou autocratização progressiva.

Fala-se em deterioração porque se trata de um declínio incremental, sem ruptura formal. Inclui, entre outras ações, retóricas de deslegitimação de elites específicas e da democracia liberal. Autocratização, por sua vez, ocorre quando se combinam três dimensões: repressão seletiva contra adversários, captura de instituições e construção de narrativas que justifiquem medidas autoritárias.

Diferentemente dos colapsos abruptos, essa forma de desmonte ocorre por dentro do sistema, usando métodos legais e a fachada de legitimidade eleitoral. O processo avança quando se combinam três fatores: atores políticos dispostos a alterar regras e instituições, oportunidades de consolidar poder —como apoio eleitoral e controle parlamentar— e uma sequência de etapas que, juntas, minam gradualmente o regime democrático.

Nos Estados Unidos, a democracia parece ter entrado em uma fase crítica de declínio. No primeiro trimestre de 2025, segundo Daniel Stockemer, em seu artigo “Is the US Moving Toward Autocracy?”, Trump já não atua apenas como um populista radical, mas conduz um processo deliberado de autocratização do regime político americano.

Reeleito com uma maioria inédita, consolidou o controle do Congresso e iniciou a neutralização dos principais contrapesos republicanos —em especial os que provêm do Legislativo e do Judiciário. Já no início do novo mandato, promoveu demissões em massa no funcionalismo público, seguidas pela edição de ordens executivas que restringem direitos civis e ameaçam liberdades acadêmicas e de imprensa.

Stockemer detalha que esse processo de corrosão democrática se estrutura em seis etapas. A primeira é a deslegitimação eleitoral, com questionamento sistemático das eleições e recusa de derrotas. A segunda, a captura institucional, envolve a nomeação de aliados políticos em postos-chave do Judiciário e da administração federal, além do uso recorrente de ordens executivas para contornar o Legislativo.

A terceira etapa é o assédio à imprensa e à sociedade civil. A quarta, a judicialização punitiva, marcada por investigações contra opositores e dissidentes internos. A quinta etapa, a militarização retórica e simbólica, mobiliza narrativas de ameaça existencial ao país para justificar vigilância ampliada e restrições de direitos. Por fim, a sexta etapa é a normalização da repressão, quando práticas autoritárias se tornam aceitáveis para amplos setores da sociedade e da elite política, consolidando a erosão dos freios institucionais.

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