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Política

Política • 28 abr, 2019

CORDIALIDADE – (CRÔNICA)



Pesquisa divulgada esta semana mostra que os brasileiros estão se sentindo tristes. O Relatório Mundial da Felicidade, do Instituto Gallup, pesquisou 156 países no ano passado. O Brasil ficou em 32º lugar. Os três mais felizes são Finlândia, Dinamarca e Noruega. O que joga o humor dos conterrâneos para baixo? O medo da violência e a falta de confiança nos políticos, entre outros motivos, garante a pesquisa.

Estamos mais tristes, mais egoístas, mais medrosos, mais arredios. E aquele mito da cordialidade está indo para a vala comum. Nunca fomos, não somos um povo cortês. Somos machistas, racistas, misóginos, xenófobos, homofóbicos, retrógrados. Como um povo que não tolera as diferenças, nem respeita a dor do outro e espanca suas mulheres, suas crianças e seus velhos pode ser considerado cordial? Não faz sentido.

Para piorar, as redes sociais não cansam de tirar gente do armário. E as demonstrações de raiva e preconceitos atingem índices intoleráveis.

Um caso exemplar. No começo deste mês morreu um menino de sete anos, atacado por avassaladora meningite. Ele era neto inocente de Lula, condenado e preso por corrupção. Para atingir o ex-presidente, muita gente comemorou a morte do garoto. Chocado com o que viu, leu e ouviu, Juan Arias, correspondente do jornal espanhol “El País” no Brasil, escreveu:

“Para aqueles que, como eu, dedicaram tantos artigos a louvar o positivo da alma brasileira, ler os comentários sem alma, sem empatia, de ódio ou sarcasmo e até mesmo regozijando-se pela morte de um inocente, seria preferível não ter vivido este dia”. 

O homem cordial brasileiro não existe. Assim como a esperança na viabilidade do ser humano está murchando. Sempre que escuto falar de nossa hospitalidade, generosidade e amabilidade, suspeito profundamente. A imagem que os estrangeiros têm de nós está muito distante da realidade.

Vira-e-mexe lembro um quadro humorístico da televisão. É antigo, da segunda metade dos anos 70 do século passado. Nele, malandros ensinavam uma americana, interpretada por Kate Lyra, a falar palavras chulas. Ela achava, ingenuamente, que as palavras tinham outro significado. E, no fim, dizia:

– Ah, brasileiro é tão bonzinho… Não é preciso ir longe no tempo, nem no espaço. Dia desses cumprimentei uma senhora em meu prédio, em Florianópolis. Educadamente dei bom dia. Ela sequer respondeu. Suspirei, contei até dez, pensei na vida, mas não me contive e comentei alto: 

– Ah, brasileiro é mesmo muito bonzinho.

Por Cesar Seabra




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