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Artigos • 08 mar, 2022

A guerra na Ucrânia


(Fausto Mato Grosso ) –

A invasão à Ucrânia, levada a cabo por Vladimir Putin, merece o repúdio de todos os pacifistas e democratas.

Revela um anacronismo saudosista do que foi o império russo e a antiga União Soviética. A resistência do povo ucraniano está escrevendo páginas de glória já vividas em outros episódios recentes.

Exemplo disso foi a Revolução Laranja, entre 2004 e 2005, em resposta às denúncias de corrupção, intimidação por votos e fraude eleitoral direta, durante a eleição presidencial ucraniana de 2004.

Também entre 2014 e 2015, no levante popular que levou à deposição do presidente pró-Rússia Viktor Yanukovich, deixando feridas profundas que formaram o contexto para a atual invasão russa.

Nos dois episódios, o povo ucraniano mostrou nas ruas a determinação da luta pela democracia. Esse último episódio é relatado com riqueza de detalhes no documentário “Winter on Fire”, do diretor Evgeny Afineevsky.

Ao cidadão comum, entretanto, fica sempre a dificuldade de formação de convicção sobre invasão, dada a intensa guerra cultural existente sobre o assunto, que tenta impor uma verdade única, empacotada ideologicamente. O tema é complexo e são vários os aspectos a se considerar.

1. A Rússia de hoje não tem nada a ver com a União Soviética de outrora. É uma potência capitalista, comandada por oligarcas corruptos que se apropriaram das empresas estatais no processo de privatização levado a efeito durante o governo de Boris Yeltsin. Putin é expressão desse sistema apodrecido e autoritário.

2. A invasão à Ucrânia inaugura um novo momento geopolítico do mundo. Antes, tínhamos a Guerra Fria mantida pelo equilíbrio do terror entre os arsenais nucleares dos EUA e da União Soviética.

Com o desmoronamento dessa, inaugurou-se um período em que os Estados Unidos assumiram o papel de único xerife do mundo e tentaram impor a sua ordem no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria, pelas armas.

Agora, a Rússia tenta participar desse jogo, de novo, ressuscitando a Guerra Fria, inclusive ameaçando com o seu arsenal nuclear.

3. Após o desmoronamento da União Soviética, houve a extinção do Pacto de Varsóvia, entretanto, a Otan continuou existindo e se expandiu para o oeste, com a incorporação das antigas repúblicas soviéticas ao bloco.

O que poderia ser um momento de desarmamento acabou se transformando em uma anacrônica nova Guerra Fria. De órgão de segurança coletiva, a Otan parece ter se transformado em uma organização estratégica para o controle da energia na Europa. A guerra na Ucrânia tem tudo a ver com isso.

4. A Ucrânia sempre teve problemas com a Rússia. Durante o período Stalin, essa república foi submetida a uma política rigorosa de requisição de alimentos, que levou fome e morte ao país, deixando cicatrizes profundas anti-Rússia.

Alguns historiadores relatam que, quando os nazistas de Hitler invadiram o país na Segunda Guerra Mundial, foram saudados como libertadores.

5. Esse passado pode ser encontrado por trás da existência de numerosos grupos neonazistas proativos no país. A blogueira bolsonarista Sara Winter, presa após liderar o foguetório contra o Supremo Tribunal Federal, afirma ter sido treinada na Ucrânia.

Nas passeatas, bolsonaristas ligados ao “grupo dos 300” e ao Movimento Brasil Livre (MBL) entoam a palavra de ordem de “ucranizar” o Brasil. O deputado estadual paulista Arthur do Val, acompanhado de um dirigente do MBL na Ucrânia, posta fotos de suas participações na fabricação de coquetéis molotov.

Entretanto, é importante distinguir os grupos neonazistas no contexto mais amplo da resistência ucraniana. A Ucrânia luta hoje pela sua autodeterminação e pela democracia, diante de uma Rússia imperialista e ditatorial. Por isso tem merecido um amplo apoio mundial.

6. O contexto ucraniano é extremamente complexo, por isso a necessidade de uma análise multifacetada. Nessa história não há mocinhos e bandidos.

Concretamente, temos invasores e invadidos, democratas e autoritários. Aí não há dúvidas, deve ser apoiada a luta dos ucranianos e o grande desafio é conseguir o imediato fim das hostilidades e o cessar fogo, para que se possa negociar a paz.

Fausto Mato Grosso  – Professor aposentado da UFMS, membro do Conjuntura MS

Fonte – Correio do Estado




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