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Artigos • 21 jul, 2024

Traços do caos na linha do horizonte (Gaudêncio Torquato)


O que está por trás dos conflitos, medo e insegurança que banham o espírito do nosso tempo?

Joe Biden, nos EUA, tem dito e repetido que Donald Trump é um mentiroso contumaz. E o republicano, agora com uma bandagem branca sobre uma orelha, torna-se favorito ao pleito de novembro, graças ao atentado de que foi vítima. Produziu uma foto icônica, punho erguido, sangue escorrendo da orelha para as bochechas, com a estética que o insere no altar dos heróis, reforçada pelo grito: “lutem, lutem, lutem”.

Tentemos suavizar a leitura acima com o sentimento de que, chegando mais uma vez ao Salão Oval da Casa Branca, Donald Trump veria que a realidade mundial está a exigir um ocupante naquele espaço com responsabilidade para não exorbitar em suas funções de mandatário e retocar um discurso pleno de ameaças. E, sobretudo, que seja guiado pela bússola do bom senso.

Quem diria que na metade da segunda década do século XXI, o nosso habitat padeceria de situações de barbárie, atos que revelam um atraso civilizatório, tão horripilantes como os que devastaram, no passado, nações ao curso de guerras e massacres.

O momento sugere a reflexão: afinal, o que está por trás dos conflitos, medo e insegurança que banham o espírito do nosso tempo? Só mesmo a ambição, a ânsia do poder, o desejo do Homem em vencer seu semelhante, tornando este um refém de sua vontade. O altruísmo está dando adeus. A convivialidade humana se esvai na poeira da história. A grandeza abre crateras de terror e medo. A conflituosidade se adensa pelos espaços, sob a ameaça do “paradigma do caos”, nos termos usados pelo professor Samuel Huntington, de Harvard, e já expressos por este escriba em textos anteriores:

– “Quebra da lei e da ordem, Estados fracassados e anarquia crescente, onda global de criminalidade, máfias transnacionais e cartéis de drogas, declínio na confiança e na solidariedade social, violência étnica, religiosa e civilizacional e a lei do revólver.

Até parece que o relógio do Juízo Final está perto da meia noite. Abro, aqui, um parêntesis para descrever a história. (Em 1947, a artista norte-americana, Martyl Langsdorf, esposa do físico Alexander Goldsmith Jr, do projeto Manhattan -fabricação da bomba atômica, obra de Roberto Oppenheimer-, desenhou um relógio para a capa de uma revista.

Lembrete: ao final da Segunda Guerra Mundial, bombas nucleares jogadas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki deixaram efeitos devastadores. Ainda hoje sentidos.

Onomatopeias de horror – Santo Deus! Que tristeza! Quanta crueldade! Quanta crueldade…!) se ouvem aqui e ali. O medo nos faz fechar os vidros do carro. Portas e trancas fortes nos guardam em nossas moradias. A fuzilaria barulha as ruas. Os humanos procuram sombras de segurança. Mas esbarram em montanhas de violência.

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político




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