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Artigos • 11 abr, 2026

OPINIÃO: A Patologia das Instituições: O Caso Carioca


O comentário de Flávio Dino em um julgamento recente do STF toca num ponto que é quase uma anomalia institucional: o Rio de Janeiro se tornou um caso paradigmático de colapso político-administrativo. Vários governadores presos, presidentes da Assembleia Legislativa afastados, conselheiros do Tribunal de Contas envolvidos em escândalos – é um acúmulo de episódios que não encontra paralelo em nenhum outro estado brasileiro.

O Rio não é apenas um estado em crise; é um laboratório do fracasso sistêmico. A captura das instituições por redes de corrupção, a promiscuidade entre poder político e interesses privados, e a incapacidade de criar mecanismos de autorregulação mostram que o problema não é episódico, mas estrutural.

O que Dino sugere, ao destacar a singularidade do Rio, é que há uma patologia institucional que se cristalizou ali. Enquanto em outros estados os escândalos aparecem de forma pontual, no Rio eles se tornaram recorrência, quase rotina. Isso gera uma erosão da confiança pública e coloca em xeque a própria ideia de governabilidade.

Em termos de comentário crítico, ao meu ver, o cenário carioca é a metáfora perfeita daquilo que acontece quando a democracia formal não consegue se sustentar em práticas republicanas. O Rio é exceção, mas também é alerta: se a lógica de captura e colapso institucional não for contida, outros estados podem seguir o mesmo caminho.

Se pensarmos historicamente, o que acontece no Rio de Janeiro lembra outros momentos em que sistemas políticos entraram em colapso por incapacidade de se autorregular. Há paralelos claros:

Itália nos anos 1990 (Operação Mãos Limpas): a investigação revelou uma rede sistêmica de corrupção que envolvia partidos, empresários e instituições públicas. O resultado foi a implosão de partidos tradicionais e uma reconfiguração completa do sistema político. Assim como no Rio, não se tratava de casos isolados, mas de uma lógica estrutural de captura.

Colômbia nos anos 1980-90: a infiltração do narcotráfico nas instituições políticas e judiciais corroeu a credibilidade do Estado. Governadores, parlamentares e até presidentes foram acusados de vínculos com cartéis. A confiança pública foi devastada, e o país precisou de reformas profundas para reconstruir sua governabilidade.

Argentina durante a crise de 2001: embora o problema fosse mais econômico, a sucessão de presidentes em poucos dias e a incapacidade das instituições de dar respostas efetivas mostraram um colapso de legitimidade. A erosão da confiança social se assemelha ao que o Rio vive em escala estadual.

Casos clássicos como a República de Weimar (Alemanha, anos 1920-30): ali, a fragilidade institucional e a incapacidade de conter crises sucessivas abriram espaço para soluções autoritárias. O alerta que o Rio traz é justamente esse: quando a democracia formal não consegue se sustentar em práticas republicanas, o vácuo pode ser ocupado por alternativas antidemocráticas.

O ponto central é que o Rio de Janeiro funciona como um microcosmo de colapso institucional, comparável a experiências internacionais em que a corrupção sistêmica, a captura por interesses privados ou a incapacidade de resposta estatal corroeram a legitimidade política. A diferença é que, no Brasil, isso ocorre dentro de um estado federado, criando uma tensão entre a crise local e a necessidade de estabilidade nacional.

Em termos de alerta histórico, o Rio mostra que nenhuma democracia está imune: quando práticas republicanas se tornam exceção e não regra, o sistema pode se degradar até perder a capacidade de se regenerar.
Se olharmos para experiências internacionais, há exemplos de respostas institucionais bem-sucedidas que podem servir de inspiração para pensar caminhos possíveis para o Rio de Janeiro:

Itália pós-Mãos Limpas (1990s): apesar do trauma inicial, o país conseguiu reformar parte de seu sistema político com novas regras de financiamento partidário e maior transparência. A criação de órgãos independentes de investigação e o fortalecimento da magistratura foram cruciais para conter a captura sistêmica.

Hong Kong nos anos 1970: diante de uma corrupção endêmica na polícia e na administração pública, foi criada a Independent Commission Against Corruption (ICAC), uma agência autônoma com forte poder investigativo e ampla legitimidade social. Em poucas décadas, conseguiu transformar a cultura institucional e reduzir drasticamente práticas corruptas.

Geórgia após a Revolução das Rosas (2003): o país enfrentava um Estado quase falido, com corrupção disseminada em todos os níveis. Reformas radicais incluíram a dissolução e reconstrução de instituições-chave (como a polícia), simplificação da burocracia e digitalização de serviços públicos. O resultado foi uma recuperação significativa da confiança social.

Chile pós-ditadura (1990s): para reconstruir a legitimidade democrática, o país investiu em mecanismos de accountability, fortalecimento do Judiciário e criação de órgãos de controle independentes. A estabilidade institucional chilena, apesar de crises pontuais, mostra como reformas estruturais podem consolidar práticas republicanas.
O que esses casos têm em comum é a percepção de que não basta punir indivíduos: é preciso reformar as engrenagens institucionais. Isso envolve:

Agências independentes com poder real de investigação e fiscalização.
Reformas administrativas que simplifiquem processos e reduzam espaços para captura.
Transparência radical, com dados públicos acessíveis e auditáveis.
Educação cívica e pressão social, para que a sociedade não normalize a corrupção como rotina.
O Rio, portanto, poderia ser pensado como um laboratório de reconstrução institucional, não apenas como exemplo de colapso. A história mostra que crises profundas podem ser também oportunidades de reinvenção – desde que haja vontade política e mobilização social.
É minha opinião!

Rio de Janeiro, 09/04/2026.
Adgerson Ribeiro de Carvalho Sousa




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