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Artigos • 23 abr, 2026

O teatro do “parece, mas não é”


Em tempo de eleição, o palco se enche de atores que juram não estar atuando. O candidato sorri como quem distribui pão, mas entrega apenas migalhas de promessas. Ele veste a máscara da humildade, mas por baixo dela há o brilho da vaidade, polido como ouro falso vendido em feira. O discurso é melódico, quase poético, mas soa como música de elevador: agradável, repetitiva, sem alma.

O “parece, mas não é” é a arte maior da política. É o perfume borrifado sobre o mofo, o verniz aplicado na madeira podre, o abraço ensaiado que nunca aquece. O candidato se apresenta como “homem do povo”, mas o povo só o vê de longe, atrás de vidros fumê. Ele se diz “novo”, mas carrega nos bolsos as velhas moedas da barganha. Ele se proclama “ético”, mas sua ética é flexível como borracha: molda-se ao interesse do momento.

Ironia cruel: o eleitor, sedento de esperança, confunde o reflexo com a fonte. Acredita que o brilho é luz, quando é apenas reflexo de holofote. Acredita que a simplicidade é genuína, quando é marketing cuidadosamente roteirizado. Acredita que a firmeza é coragem, quando é apenas teimosia travestida de virtude.

O “parece, mas não é” é o truque filosófico do simulacro: Platão já alertava sobre as sombras na caverna, mas nós seguimos aplaudindo as silhuetas. É o jogo ético do “como se”: como se fosse honesto, como se fosse competente, como se fosse humano. E nós, espectadores, aceitamos o contrato tácito da ilusão, porque talvez seja mais confortável acreditar na máscara do que encarar o vazio por trás dela.

Indagações finais

Será que o eleitor prefere o simulacro à verdade porque a mentira é mais palatável? Até que ponto o “parece, mas não é” é culpa do candidato – ou é também desejo do público, que exige espetáculo em vez de substância? E se um dia surgisse alguém que fosse, sem parecer, suportaríamos sua nudez de autenticidade? Ou já estamos condenados a viver eternamente no teatro político, onde o aplauso vale mais que a ação, e o ator mais que o homem?

Esse é o dilema contemporâneo: não apenas escolher quem governa, mas decidir se queremos ser governados pela realidade ou pela encenação.

Rio de Janeiro, 23/04/2026
Adgerson Ribeiro de Carvalho Sousa – Advogado




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