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Artigos • 27 abr, 2026

Que me deem alguém para odiar e invejar e serei um revolucionário obediente


(por Luiz Felipe Pondé, na FSP) –

Quem segue um processo político disruptivo é gente medíocre. Revoluções se alimentam de ódio, ressentimento e inveja

Uma das máximas da psicologia do revolucionário é que quase todos os que formam a infantaria de processos políticos disruptivos são gente medíocre. As revoluções políticas se alimentam de paixões tristes, como ódio, ressentimento e inveja. Pensar o contrário é uma das principais razões para não se entender o que as revoluções políticas são e como evoluem. Dê-me alguém para odiar e invejar e serei um revolucionário obediente.

A ideia de que revoluções políticas seriam movidas por intenções generosas de melhorar o mundo é uma falha na análise do que a natureza humana revela na história. Não vou me ocupar aqui com as críticas ao conceito de natureza humana que circulam pelo mercado das ideias. Para mim, perde-se tempo ao se considerar fora de moda a antropologia filosófica —disciplina que se ocupa das concepções de ser humano— em nome de um relativismo de butique tão comum hoje em dia.

Para mim, basta levar em conta o que diz o historiador suíço Jacob Burckhardt, do século 19, acerca da história no seu “Considerações sobre a História Universal”. Para se pensar numa filosofia da história, em vez de se levar em conta a crença na perfectibilidade humana, como o faz Hegel na sua sofisticada teodiceia, melhor seria levarmos em conta o que na história se repete incessantemente. Refiro-me ao que se manifesta, de modo entediante, no comportamento das pessoas, das nações e dos povos: as paixões tristes, baixas, covardes e oportunistas, motores clássicos da política desde sempre.

Terminada a digressão epistemológica, voltemos ao nosso objeto: as revoluções políticas são movidas por paixões negativas como ódio, inveja e ressentimento. Ao contrário do que possa parecer, aqueles que seguem, de forma apaixonada, as revoluções, são, de forma geral, medíocres.

Se Lênin, Trótski, Robespierre, Napoleão eram homens excepcionais —o que não significa que eram homens bons ou honestos—, os seus seguidores, pelo menos a esmagadora maioria, eram homens de vida medíocre, sem grandes dons intelectuais ou morais. Se você quiser encontrar um cão obediente e fiel às revoluções, busque nas hostes dos incompetentes e irrelevantes.

Exemplo? O medíocre Gamelin, diante da confissão da sua amada, a cidadã Élodie Blaise, de que já havia sido possuída por outro homem —portanto, não era virgem— constrói na sua mente toda uma teoria de que o canalha que a havia violentado era um “royaliste émigré”, portanto, um traidor da república francesa, defensor do antigo regime, um monarquista exilado.

Élodie sabe que o melhor para eles, dada a época em que viviam e a devoção revolucionária que animava a alma do pobre artista fracassado, era que assim ele o cresse, e, por isso, diz que seu sedutor era “dessa laia”. O deflorador da inocente moça só podia ser um traidor da revolução.

Na verdade, Élodie havia se entregado àquele jovem por pura paixão, “ofereceu-se” a ele com o prazer de ser possuída por ele, ainda que ele a tivesse abandonado, posteriormente, por damas mais promissoras para sustentá-lo. Ainda naquele momento, em que ela se confessava ao seu novo amor, um rapaz inexperiente nos amores de uma mulher —Gamelin, o revolucionário perdidamente apaixonado pela república—, Élodie sentia seu peito arder de desejo e ser tomada pelo gozo típico de uma mulher que ainda se entregaria ao antigo amante. Para Gamelin, a ideia de que Élodie tivesse “ouvido os conselhos da carne e do sangue” e se entregasse à pura volúpia parecia-lhe impossível.




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