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Artigos • 29 maio, 2026

O eldorado paraguaio que não existe


( por Guilherme Frizzera ) –  

O Paraguai virou, para certa imaginação brasileira, um Eldorado de fronteira. Não apenas o país das compras, da soja ou da energia de Itaipu, mas o lugar onde a vida seria mais simples, a economia mais livre e o Estado menos incômodo. A narrativa seduz porque organiza o mundo em duas margens: de um lado, o excesso; do outro, a saída. No meio, uma ponte que deixa de ser infraestrutura e vira mito político.

O fluxo existe. No primeiro trimestre de 2026, o Paraguai concedeu 14.275 residências a estrangeiros. Brasileiros lideraram com folga: 9.195 residências, 64% do total. Há, portanto, um movimento real. A fronteira Brasil-Paraguai passou a funcionar como espaço de comparação entre regimes fiscais, trabalhistas, migratórios e institucionais. O problema começa quando o Paraguai concreto desaparece e surge em seu lugar um Paraguai projetado, sem desigualdade, sem informalidade, sem corrupção, sem violência. Esse país não existe.

O que existe é uma economia de escala limitada. Em 2024, o PIB paraguaio foi de US$ 44 bilhões, contra US$ 2,18 trilhões brasileiros. O PIB per capita paraguaio ficou em US$ 6.416, contra US$ 10.310 no Brasil. O mercado de trabalho aprofunda o contraste: a informalidade paraguaia chegou a 62,5% da população ocupada, contra 39% no Brasil, e o rendimento médio efetivo foi de aproximadamente R$ 1.950 mensais, abaixo dos R$ 3.225 registrados no Brasil, no mesmo período. O salário-mínimo legal paraguaio é nominalmente superior ao brasileiro, mas quem trabalha no Paraguai ganha, em média, significativamente menos. Há uma combinação diferente entre custo, risco e proteção, e ela não favorece necessariamente quem trabalha.

É aqui que a falsa epopeia revela seu conteúdo político. Parte do encanto pelo Paraguai não nasce do desejo de pagar menos imposto, mas da ideia de operar com menos obrigação. Direitos trabalhistas aparecem como entraves ao sucesso individual. A informalidade muda de nome, deixa de ser problema social e vira ambiente de negócios. O trabalhador desprotegido vira vantagem comparativa. Mas liberdade, nesse caso, é uma palavra mal distribuída. Para quem contrata, ela pode significar flexibilidade. Para quem trabalha, significa insegurança.

Tampouco há paraíso institucional. No Índice de Percepção da Corrupção de 2024, o Paraguai marcou 24 pontos e ficou na 145ª posição entre 180 países, quarenta lugares abaixo do Brasil. A fronteira paraguaia, especialmente Pedro Juan Caballero e a tríplice fronteira com Brasil e Argentina, é zona de atuação consolidada do PCC e de intenso tráfico de drogas e armas.

O erro não está em escolher o Paraguai. Pode ser uma escolha racional para empresários, agricultores, aposentados e famílias. O erro está em transformar escolha racional em redenção econômica. Quando o principal incentivo para cruzar a fronteira é a flexibilidade de direitos do outro lado, o que se apresenta como liberdade econômica é, na prática, a exploração das fragilidades alheias como vantagem própria. Historicamente, o Paraguai já conhece o custo de ser tratado como espaço de projeção dos interesses dos seus vizinhos. O padrão de enxergar o país como recurso tem raízes mais longas do que o debate tributário atual deixa ver.

O Paraguai real merece ser levado a sério. O Paraguai imaginado precisa ser desmontado.

*Guilherme Frizzera é Doutor em Relações Internacionais pela UnB e Coordenador de Relações Internacionais na Uninter.




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