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Artigos • 09 jun, 2025

A eleição unificada


(Gaudêncio Torquato) – O tema é recorrente no Congresso: eleger presidente, governadores, prefeitos, vereadores e parlamentares numa única eleição, criando mandatos de cinco anos para todos os cargos. A proposta, de autoria do senador Jorge Kajuru e relatada por Marcelo Castro, já foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Se aprovada nas duas Casas, a mudança impactará fortemente nosso sistema democrático. Modificações tão profundas no sistema eleitoral exigem amplo debate com a sociedade. O relator argumenta que a unificação traria economia, menos custos com logística e campanhas, além de mais previsibilidade e governabilidade. Defende que eleições a cada dois anos comprometem a administração pública, que fica voltada ao próximo pleito.

Mas o argumento econômico é frágil. Esquece-se que os maiores gastos no país vêm da corrupção: obras inacabadas, propinas, emendas mal aplicadas. Além disso, uma eleição unificada exigiria mais tempo de votação, mais urnas, mais escolas, mais pessoal e sobrecarga à Justiça Eleitoral, já saturada com 500 mil candidaturas. As eleições de 2024, por exemplo, custaram R$ 5 bilhões — sem contar os aportes “por fora” para marketing político e serviços de campanha.

No mundo, campanhas são caras. Nos EUA, a eleição de 2024 custou US$ 15,9 bilhões (R$ 91,9 bi). Na Argentina, R$ 75,6 milhões foram investidos num fundo público.

O maior problema da unificação seria a “canibalização” do debate político: candidatos municipais seriam ofuscados por disputas presidenciais e estaduais. A atenção do eleitor se dispersaria, afetando o interesse pelas eleições locais, fundamentais para a democracia e para a vida das comunidades. Com mais candidatos concorrendo de uma vez, a competição pela atenção aumentaria, bem como os custos com cabos eleitorais, comitês e propaganda.

É irreal esperar que o eleitor vote em nove candidatos ao mesmo tempo: presidente, três senadores, governador, deputado federal, estadual, prefeito e vereador. O excesso gera confusão e enfraquece a qualidade do voto.

Há formas melhores de aperfeiçoar o sistema. Um exemplo: repensar a figura do suplente de senador, que assume mandato sem ter votos. Outro ponto questionável é estender mandatos de deputados para cinco anos, mantendo a reeleição apenas para eles. Por que só deputados manteriam esse direito?

Uma boa notícia: o projeto só teria efeito a partir de 2034. Até lá, haverá tempo para reflexão e debates mais amplos.

Escritor, jornalista, professor emérito da ECA-USP e consultor

 




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