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Artigos • 10 jun, 2025

A vida não precisa ser um jogo


por Leonardo Bessa – 

Apostar é do espírito humano. Apostamos em corridas de cavalos, em cassinos mundo afora, até em rinhas de galo. “Quer apostar?” Fazemos essa pergunta até para crianças, quando teimam em duvidar de algo que nos parece óbvio. Mas, a realidade atual que vivemos nos massacra com propagandas de casas de apostas esportivas (e outras de jogos de cassino, roleta, além do famigerado Jogo do Tigrinho) 24 horas por dia.

Um estudo do Deltafolha, plataforma de coleta de dados da Folha de S. Paulo, concluiu que, ao assistirmos uma partida de futebol, a probabilidade de vermos uma propaganda de casa de apostas na tela, seja na camiseta dos jogadores, em placas de publicidade ao redor do gramado ou na tela da Tv é de 70%. Número superior à chance de vermos a bola de futebol!

Confesso que não fiquei surpreso. Tente entrar em uma das redes sociais mais utilizadas pelos brasileiros, como Youtube, Instagram e Twitter e não ser bombardeado por propagandas de casas de apostas? As bets. Ou ainda, dê uma zapeada por canais de Tv aberta e fechada. Em todo intervalo comercial você vai se deparar com um anúncio de uma loteria: Novibet, Esportes da Sorte, Bet Nacional, Betano, Bet 365, Rivalo, o número é infindável.

Além disso, celebridades, influenciadores, jogadores de futebol e narradores estão ganhando rios de dinheiro em cima da desgraça alheia, faturando, em contrato, percentuais sobre a perda de cada apostador. Um cenário assustador e que precisa de novas regulamentações com urgência. O governo federal acaba de editar uma norma técnica que prevê mais rigor na propaganda e em informações sobre riscos à saúde, em caso de jogo compulsivo. Mas, ainda é pouco.

Sofri na pele o problema da adicção em apostas esportivas e jogos eletrônicas, doença mental tipificada pela OMS dentro CID-11, DSM-6: transtorno do jogo, considerado uma patologia grave, com ares de epidemia mundo afora. Comigo começou como brincadeira, apostas eventuais em jogos de futebol, uma grande paixão. Até se transformar em dependência, com apostas cada vez mais caras, aflição para que acertasse os resultados e perdas financeiras e emocionais gigantescas.

Tinha vezes em que saía da mesa do restaurante em que estava almoçando com a família para ir até o banheiro apostar. Como fazem os usuários de cocaína e outras drogas. Estava tomado pelo vício, não podia mais trabalhar, ser funcional, conviver alegremente com amigos e a família. Até que, em comum acordo com meus pais, decidi me internar em uma clínica de reabilitação, em 2020. Já havia torrado quase R$200 mil até então, apostando o que tinha e o que não tinha em jogos de campeonatos asiáticos de divisões inferiores, beisebol, basquete, tênis, cricket, rúgbi, futebol feminino sub-20. O que estivesse disponível para apostar eu depositava o dinheiro e ficava sofrendo na esperança de conseguir a recompensa. Para, então, começar tudo de novo.

A clínica me trouxe novas perspectivas, um olhar crítico e me devolveu a sanidade. Hoje, consigo assistir jogos de futebol numa boa, recuperei o prazer pelo jogo, sem a infestação nefasta da necessidade de estar sempre alerta, torcendo por um gol, um cartão amarelo ou um escanteio. Recuperei a vontade de trabalhar, ser produtivo e funcional. Espero que com fiscalização mais rígida, informações sobre saúde mental e regulamentação da propaganda agressiva, mais pessoa possam encontrar a paz que eu recuperei.

*Leonardo Bessa, 41 anos, é jornalista. Atua como voluntário em uma clínica psiquiátrica em Curitiba. Há cinco anos está em tratamento contra a dependência em apostas esportivas e outras adições.

(Fonte – Blog do Zé Beto)




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