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Artigos • 06 mar, 2025

Aforça da amizade


por Célio Heitor Guimarães –

Já disse o grande Milton, “amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito […] dentro do coração”. E Rubem Alves completava: “A experiência da amizade parece ter suas raízes fora do tempo. Um amigo é alguém com quem estivemos desde sempre”.

Como eu também já disse e repeti aqui, tenho poucos amigos. Mas são amigos verdadeiros, sinceros e queridos, com os quais posso contar nos momentos de alegria e de dor. É também de Rubem a assertiva de que “diante de um amigo, sabemos que não estamos sós”.

Senti isso há pouco tempo, quando do falecimento de minha mulher. Recebi e continuo recebendo mensagens de afeto, incentivo e apoio. Algumas já dividi com os meus eventuais leitores. Outras ainda não. Como o texto enviado por Mário Montanha Teixeira Filho, o meu estimadíssimo Da Montanha:

“Meu querido Célio: Há pouco menos de um mês, você escreveu sobre a partida da Cleonice, o seu grande e definitivo amor. Uma declaração emocionante, delicada e bela. Imediatamente, me pus a refletir sobre a profundidade daquele texto. Eu, que não cheguei a conhecer a Cleonice, pude enxergá-la com nitidez em cada detalhe das suas lembranças, como se uma avalanche de imagens acompanhasse as letras postas diante dos meus olhos. Eis, a aquecer a vida, o encantamento das palavras e das paixões, que lhe pertence e faz parte da sua personalidade cativante, meu amigo.

“De alguma maneira – isso me parece óbvio –, você não estava desacompanhado quando revelou, com tanta sensibilidade, a dor e a esperança da despedida, síntese das contradições que cercam os nossos caminhos. Ela, a criatura amada, continuou e continua ao seu lado, porque entre vocês dois há uma sequência que, afetada pelo inesperado, ainda assim não se rompeu. Mais do que isso, há a perspectiva do reencontro – o reencontro em outra dimensão, a do mistério.

“Deixo essas considerações despretensiosas porque elas têm a ver com o que conversamos no café da sexta-feira, sobre a imensidão do universo e a morte. Talvez a melhor resposta às indagações que tentávamos responder naquele dia esteja mais perto do que o imaginado, no amor em essência. Acalmo, então, o meu ceticismo, que me segue desde sempre, para remover do campo do impossível a ideia de vida além do tempo, do espaço e da matéria. Devo-lhe isso”.

Mário, para quem não o conhece, é uma doçura de criatura. Amável, inteligente, fraterno e solidário, um bravo lutador pelas causas nobres e pela igualdade social. Não acredita em Deus (por enquanto), mas tem Ele no coração. Fez-me bem a mensagem recebida dele e, por isso, atrevo-me a descumprir a intenção de não mais voltar à perda sofrida. Mário merece isso e sou-lhe grato do fundo do coração. É uma honra tê-lo como amigo.

E aí cabe nova citação do saudoso e certeiro Rubem Alves: “Viver a vida, aceitando o risco da morte: isso tem o nome de coragem. Coragem não é a ausência de medo. É viver, a despeito do medo”




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