Campo Grande, 18/06/2021

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Artigos • 17 maio, 2021

Civilidade política


(por David Mamet* )

Eu observara que a luxúria, a cobiça, a inveja, a preguiça e seus colegas vêm dando muito trabalho ao mundo, mas que, não obstante, as pessoas, de um modo geral, parecem conseguir levar suas vidas adiante; e que nós, nos EUA, levamos nossas vidas adiante sob condições bastante privilegiadas e ótimas – que não somos e nunca fomos os vilões que parte do mundo e alguns de nossos cidadãos querem nos fazer parecer, mas que somos um misto de cidadãos normais (cobiçosos, desejosos, enganosos, corruptos, inspirados -em suma, humanos) que vivem sob um acordo espetacularmente eficaz chamado Constituição e que temos sorte de contar com ele.

Pois a Constituição, em lugar de sugerir que nos comportemos todos de maneira semelhante à dos deuses, reconhece que, pelo contrário, as pessoas são porcos e aproveitarão qualquer oportunidade que lhes aparecer para subverter qualquer pacto, visando a defender o que consideram ser seus interesses próprios.

Com essa finalidade em vista, a Constituição divide o poder do Estado naqueles três ramos que são, para a maioria de nós (eu me incluo nela), a única coisa da qual nos recordamos de 12 anos de ensino fundamental e médio.

Redigida por homens dotados de alguma experiência prática de governo, a Constituição parte da premissa de que o chefe do Executivo trabalhará para tornar-se rei, que o Parlamento vai conspirar para vender a prataria da casa e que o Judiciário vai considerar-se olímpico e fazer tudo o que puder para melhorar em muito (destruir) o trabalho dos dois outros ramos.

Por essa razão, a Constituição os opõe uns aos outros, não numa tentativa de alcançar a estase, mas de possibilitar as correções constantes necessárias para impedir que um ramo conquiste poder demais por tempo excessivo.

Muito brilhante. Pois, abstratamente, podemos idealizar uma perfeição olímpica de seres perfeitos em Washington trabalhando pelo bem de seus empregadores, o povo, mas qualquer um de nós que já esteve presente a uma reunião de discussão sobre zoneamento em que nosso imóvel estivesse em questão tem consciência do desejo premente de passar por cima de toda a baboseira e partir diretamente para as armas de fogo.

*Dramaturgo, roteirista, diretor, poeta, ensaísta e romancista americano.




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